quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Tempos Trabalhosos

ÉLDER CECIL O. SAMUELSON JR.
Dos Setenta

Quão grato sou, nestes tempos trabalhosos, pela proteção e orientação que nos são dadas pela sagrada certeza de que Jesus Cristo vive hoje.

É ao mesmo tempo consolador e potencialmente preocupante saber que vivemos numa era e num tempo que foi não apenas predito pelos profetas das dispensações anteriores, mas também foi claramente um foco de suas preocupações e aspirações. O Apóstolo Paulo disse: “Nos últimos dias sobrevirão tempos trabalhosos” (II Timóteo 3:1), e prosseguiu com uma lista e descrição incrivelmente precisas de muito do que vemos atualmente na mídia, nas propagandas de entretenimentos e em quase todo lugar do mundo a nosso redor. Por mais cuidadosos que sejamos e devamos ser, é muito difícil e freqüentemente quase impossível evitar completamente grande parte do perigo que parece estar nos envolvendo.

Felizmente, não estamos sem esperança ou apoio espiritual em nosso empenho como indivíduos e como famílias em cumprir os sagrados propósitos da vida mortal, para os quais viemos a esta provação terrena. A situação de cada pessoa é única e especial. Viemos literalmente dos quatro cantos da Terra, tendo diferenças imensas em relação às nossas famílias, formação, desafios, oportunidades, experiências, triunfos e desapontamentos.

Por outro lado, temos muito em comum com toda a família humana, somos todos progênie de nosso amoroso Pai Celestial e compartilhamos de uma imensa congruência em nosso DNA, ou nossa composição física genética, bem como nas universalmente possíveis e prometidas bênçãos e características que identificam nosso parentesco divino e nosso potencial espiritual. É essa mistura de nossas origens e características comuns e também de nossos atributos e experiências individuais e desafios específicos que faz de cada um de nós quem e o que somos. Embora tenhamos diferenças em relação ao que é especialmente perigoso para cada um de nós individualmente, compartilhamos muitas das coisas que tornam a descrição “tempos trabalhosos” adequada para todos nós.

Paulo, ao descrever nossos “tempos trabalhosos” não prometeu que as coisas ficariam mais fáceis ou necessariamente melhores. Contudo, ele deixou conselhos para os que procuram consolo e segurança ao se verem diante das condições cada vez mais difíceis de nossos dias. Assim como as profecias ou predições foram claramente precisas, as suas instruções para nós também são extraordinariamente relevantes. Ele disse: “Permanece naquilo que aprendeste, e de que foste inteirado, sabendo de quem o tens aprendido”. (II Timóteo 3:14)

Nesta Conferência Geral, de modo condizente com o padrão que tem sido seguido em toda a história da Igreja, aprendemos e aprenderemos a respeito da Restauração do evangelho em nossos dias; da notável clareza do Livro de Mórmon e do testemunho do Senhor Jesus Cristo nele encontrado; da missão e contribuições do Profeta Joseph Smith e de seus sucessores na presidência da Igreja, incluindo, em especial, o Presidente Gordon B. Hinckley, que ensina e testifica com extraordinário vigor, espiritualidade e lucidez; e da força, consolo e bênçãos que resultam da presença de outros apóstolos e profetas vivos em nosso meio. Não apenas aprendemos essas coisas, mas temos a certeza de que são verdadeiras, sabendo, como disse Paulo, “de quem [as aprendemos]”.

Outro que sabia e tinha autoridade para dar certeza aos que ele ministrava foi Alma. Ao expressar sua satisfação pelo privilégio de ensinar e testificar ao povo de Gideão, ele foi direto e claro em seu testemunho do Senhor Jesus Cristo, que ainda estava para vir em Seu ministério terreno. Alma expressou seu deleite pela fé e fidelidade da maior parte daquele grupo de boas pessoas e prometeu-lhes que receberiam “muitas coisas [que estavam] para vir”. (Alma 7:7) No meio de seu discurso em que descrevia as coisas que ainda iriam acontecer, ele disse: “Eis que há uma coisa mais importante que todas as outras—(…) não está longe o tempo em que o Redentor viverá e estará no meio de seu povo”. (Alma 7:7)

Em sua época, Alma estava falando especificamente a respeito dos eventos de algumas décadas mais tarde, quando o Salvador nasceria na mortalidade. Passaram-se séculos, e as profecias de Alma foram quase todas cumpridas, mas o ponto central de sua avaliação do que era mais importante do que tudo no mundo continua sendo absolutamente verdadeiro, totalmente relevante e fundamentalmente essencial também para nós, no mundo atual. Esse ponto central é o fato de que “o Redentor vive”.

Portanto, da mesma forma que Alma e “todos os profetas que profetizaram desde o princípio do mundo” (Mosias 13:33) ensinaram e testificaram a respeito da vinda do Messias e Sua missão de redimir Seu povo, acrescentamos nosso testemunho Dele e de Sua sagrada obra de “levar a efeito a imortalidade e vida eterna do homem”. (Moisés 1:39) Sem dúvida quando começamos a compreender a magnitude de Seu sacrifício e serviço por nós, individual e coletivamente, não podemos pensar em nada que seja mais importante ou que se aproxime de Seu significado em nossa vida.

Para a maioria de nós, essa plena compreensão não é adquirida de uma vez e provavelmente não estará plenamente completa em nossa jornada terrena. Sabemos, contudo, que ao aprendermos linha sobre linha, nosso apreço pelas contribuições do Salvador continuará a aumentar e nosso conhecimento e a certeza de sua veracidade crescerão.

O Apóstolo Paulo foi enérgico e franco em grande parte de seu ensino e pregação. Ouçam estas palavras conhecidas que descrevem a maioria de nós em nosso esforço e progresso, mas nos deixam conselhos, incentivos e testemunhos de que todos tanto precisamos.

“Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, discorria como menino, mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino.

Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido.” (I Coríntios 13:11–12)

Há muitos anos, o Élder James E. Faust deu este conselho aos que estão tendo dificuldade em adquirir uma plena convicção em seu testemunho de Jesus Cristo e Sua sagrada missão e promessas. Ele disse:

“Para aqueles que sinceramente têm dúvidas, ouçamos o que as testemunhas oculares têm a dizer a respeito de Jesus de Nazaré. Os antigos apóstolos estavam lá. Eles viram tudo. Participaram do que aconteceu. Ninguém é mais digno de confiança do que eles. Pedro disse: ‘Porque não vos fizemos saber a virtude e a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo, seguindo fábulas artificialmente compostas; mas nós mesmos vimos a sua majestade’. (II Pedro 1:16) João disse: ‘Porque nós mesmos o temos ouvido, e sabemos que este é verdadeiramente o Cristo, o Salvador do mundo’. (João 4:42) Joseph Smith e Sidney Rigdon, testemunhas modernas, declararam: ‘Porque o vimos, sim, à direita de Deus; e ouvimos a voz testificando que ele é o Unigênito do Pai’. (D&C 76:23)” (“A Personal Relationship with the Savior,” Ensign, Nov. 1976, 59).

Em nossos próprios dias, recebemos a promessa de que o Senhor tem muitas dádivas reservadas para aqueles “que [O] amam e guardam todos os [Seus] mandamentos” e aqueles “que procuram assim fazer”. (D&C 46:9) Embora nem todos os dons de Deus sejam concedidos a todas as pessoas, temos a garantia de que “a cada [pessoa] é dado um dom pelo Espírito de Deus”. (D&C 46:11)

Ouçam as palavras da seção 46 de Doutrina e Convênios que falam da coisa ou dádiva mais importante de todas.

“A alguns é dado saber, pelo Espírito Santo, que Jesus Cristo é o Filho de Deus e que foi crucificado pelos pecados do mundo.

A outros é dado crer nas palavras deles, para que tenham também vida eterna se permanecerem fiéis.” (D&C 46:13–14)

É esse conhecimento e testemunho do Cristo vivo que nos permitem estar constantemente receptivos ao conselho de Pedro, que disse que precisamos estar sempre “preparados para responder com mansidão e temor a qualquer que vos pedir a razão da esperança que há em vós”. (I Pedro 3:15)

Quando começamos a sentir realmente que essa esperança é real e que está de fato centralizada em Jesus, sendo possível por causa de Seu amor por nós e especialmente por Seu amor pelo Pai, então poderemos individualmente proclamar com gratidão, usando as palavras de um hino favorito: “Assombro me causa o amor que me dá Jesus”. (Hinos no 112) De igual modo, à medida que nossa compreensão cresce, somos levados a exclamar: “Canta minha alma, então a ti, Senhor, Grandioso és tu, grandioso és tu!” (Hinos, no 43)

Quão grato sou, nestes tempos trabalhosos, pela proteção e orientação que nos são dadas pela sagrada certeza de que Jesus Cristo vive hoje, em nome de Jesus Cristo. Amém.

sábado, 10 de setembro de 2011

Convite à Coragem

PRESIDENTE THOMAS S. MONSON
Primeiro Conselheiro na Primeira Presidência

Tenhamos coragem de discordar do consenso geral, a coragem de manter nossos princípios. A coragem, e não as concessões, recebe o sorriso de aprovação de Deus.

Irmãos, vocês são uma visão inspiradora. É assombroso lembrar que em milhares de capelas espalhadas pelo mundo inteiro neste instante, outros portadores do sacerdócio de Deus como vocês estão recebendo esta transmissão via satélite. Vocês têm nacionalidades diferentes e diversos idiomas, mas um laço comum nos une. Foi-nos confiado o sacerdócio para agirmos em nome de Deus. Temos uma responsabilidade sagrada. Muito é esperado de nós.

Há muito tempo, o renomado escritor Charles Dickens escreveu a respeito das oportunidades que nos aguardam. Em sua obra clássica intitulada As Grandes Esperanças, Dickens descreve um rapaz chamado Philip Pirrip, mais conhecido como “Pip”. Pip nasceu em circunstâncias incomuns. Ele é órfão. Desejava de todo o coração ter estudos e ser um cavalheiro. Mas todas as suas ambições e esperanças pareciam destinadas ao fracasso. Será que vocês, rapazes, às vezes se sentem assim? Será que alguns dos mais idosos também têm esse mesmo tipo de pensamento?

Então, certo dia, um advogado de Londres chamado Jaggers procurou o pequeno Pip e disse que um benfeitor desconhecido lhe deixara uma fortuna. O advogado colocou os braços em torno dos ombros de Pip e disse: “Meu rapaz, grandes coisas o aguardam”.

Nesta noite, ao olhar para vocês, rapazes, e dar-me conta de quem vocês são e o que podem vir a ser, declaro: “Grandes coisas os aguardam”. Não como resultado do legado de um benfeitor desconhecido, mas de um Benfeitor conhecido, sim, o nosso Pai Celestial, e espera-se grandes coisas de vocês.

A jornada da vida não é uma via expressa livre de obstáculos, armadilhas e ciladas. Na verdade, ela é um caminho marcado por encruzilhadas e retornos. Temos constantemente que tomar decisões. Para fazê-lo de modo sábio, precisamos de coragem: A coragem de dizer “não”, a coragem de dizer “sim”. As decisões determinam nosso futuro.

Somos constantemente conclamados a ter coragem. Sempre foi assim, e sempre será assim.

A coragem de um líder militar foi registrada por um jovem oficial da infantaria que vestia o uniforme cinza da Confederação, durante a Guerra Civil Americana. Ele descreve a influência do General J. E. B. Stuart com as seguintes palavras:

“Num momento crítico da batalha, ele apontou a mão para o inimigo e gritou: ‘Em frente, homens. Em frente! Venham atrás de mim!’

Com coragem e determinação eles [o seguiram] como uma torrente violenta, e o objetivo foi conquistado e mantido”.1

Antes disso, numa terra distante, outro líder fez o mesmo pedido: “Vinde após mim”.2 Ele não era um general do exército. Na verdade, Ele era o Príncipe da Paz, o Filho de Deus. Aqueles que O seguiram na época e aqueles que O seguem hoje conquistam uma vitória muito mais importante, que tem conseqüências eternas. A necessidade de coragem é constante.

As santas escrituras retratam a evidência dessa verdade. José, o filho de Jacó, o mesmo que foi vendido para o Egito, mostrou a firme resolução da coragem quando estava diante da mulher de Potifar, que tentara seduzi-lo, declarando: “Como pois faria eu tamanha maldade, e pecaria contra Deus? E não lhe dando ele ouvidos (…) saiu para fora”.3

Em nossos dias, um pai aplicou esse exemplo de coragem à vida de seus filhos, declarando: “Se perceberem que estão onde não deviam estar, saiam dali!”

Como podemos deixar de sentir-nos inspirados pela vida dos 2.000 jovens guerreiros de Helamã que ensinaram e demonstraram a necessidade da coragem para seguirem os ensinamentos dos pais, a coragem de serem castos e puros?4

Talvez todos esses relatos culminem com o exemplo de Morôni, que teve a coragem de perseverar até o fim em retidão.5

Todos somos fortalecidos pelas palavras de Moisés: “Esforçai-vos, e animai-vos; não temais, (…) porque o Senhor teu Deus é o que vai contigo; não te deixará nem te desamparará”.6 Ele não os deixou. Não os desamparou. Não os abandonou. E também não nos desamparará.

Essa doce certeza pode guiar todos nós em nossa época, em nossos dias, em nossa vida. Evidentemente teremos que enfrentar o temor, a ridicularização e a oposição. Tenhamos coragem de discordar do consenso geral, a coragem de manter nossos princípios. A coragem, e não as concessões, recebe o sorriso de aprovação de Deus. A coragem se torna uma virtude viva e atraente se for considerada não apenas como a disposição de morrer com honra, mas a determinação de viver decentemente. Um covarde moral é aquele que tem medo de fazer o que acha que é certo porque os outros irão desaprovar ou rir dele. Lembrem-se de que todos os homens têm seus medos, mas aqueles que enfrentam o temor com dignidade também são corajosos.

Gostaria de compartilhar um exemplo do serviço militar tirado da minha cronologia pessoal de coragem.

Entrar na Marinha dos Estados Unidos nos últimos meses da Segunda Guerra Mundial foi uma experiência difícil para mim. Fiquei sabendo de atos de bravura e exemplos de coragem. Um dos mais memoráveis foi a serena coragem de um marinheiro de dezoito anos que não era da nossa Igreja e não era orgulhoso demais para orar. Dentre os 250 homens da companhia, ele era o único que se ajoelhava todas as noites ao lado de sua cama, muitas vezes em meio às zombarias dos curiosos e descrentes, e inclinava a cabeça para orar a Deus. Ele nunca deixou de fazê-lo. Nunca vacilou. Ele tinha coragem.

Gosto muito das palavras da poetisa Ella Wheeler Wilcox:

É muito fácil ser alegre
Quando a vida flui como uma canção,
Mas o homem de valor é aquele que sorri
Quando tudo dá errado na vida.
7

Um homem assim foi Paul Tingey. Há apenas um mês estive em seu funeral aqui em Salt Lake City. Paul foi criado num excelente lar SUD e serviu em uma missão honrosa para o Senhor, na Alemanha. O Élder Bruce D. Porter, do Primeiro Quórum dos Setenta foi companheiro dele no campo missionário. O Élder Porter descreveu o Élder Tingey como um dos mais dedicados e bem-sucedidos missionários que ele conheceu.

Ao terminar a missão, o Élder Tingey voltou para casa, concluiu seus estudos na universidade, casou-se com sua namorada e juntos criaram sua família. Ele serviu como bispo e teve sucesso em sua carreira profissional.

Então, sem aviso, os sintomas de uma terrível doença acometeram seu sistema nervoso: a esclerose múltipla. Incapacitado pela enfermidade, Paul Tingey lutou valentemente, mas acabou confinado a uma casa de repouso pelo resto de sua vida. Lá ele animava os tristes e fazia todos sentirem-se felizes.8 Sempre que assisti uma reunião da Igreja ali, Paul elevou meu espírito, como fazia com todos.

Quando as Olimpíadas foram realizadas em Salt Lake City, em 2002, Paul foi escolhido para carregar a tocha olímpica por uma distância especificada. Quando isso foi anunciado na casa de repouso, ouviram-se aplausos dos pacientes ali reunidos ecoando vigorosamente por todo o prédio. Quando fui cumprimentar o Paul, ele disse com sua fala dificultada: “Espero que eu não derrube a tocha!”

Irmãos, Paul Tingey não derrubou a tocha olímpica. E mais, ele carregou bravamente a tocha que lhe foi entregue em sua vida, fazendo isso até o dia de sua morte.

Espiritualidade, fé, determinação, coragem: Paul Tingey tinha tudo isso.

Alguém disse que a coragem não é não termos medo, mas, sim, dominarmos esse medo.9 Às vezes, precisamos de coragem para erguer-nos do fracasso e tentar de novo.

Quando eu era adolescente, participei de um jogo de basquete na Igreja. Quando não se sabia quem ganharia o jogo, o técnico me mandou para a quadra, logo após o início do segundo tempo. Peguei um passe, driblei a bola até o garrafão e fiz um arremesso. Assim que a bola saiu da minha mão, dei-me conta de que os jogadores adversários não tentaram impedir a minha jogada: Eu estava arremessando para a cesta errada! Fiz uma oração em silêncio. “Por favor, Pai, não deixe que a bola entre.” A bola circundou o aro e caiu para fora.

Ouviu-se então a torcida gritar: “Queremos Monson, queremos Monson, queremos Monson — fora do jogo!” O técnico fez a vontade da torcida.

Muitos anos depois, como membro do Conselho dos Doze, acompanhei outras Autoridades Gerais numa visita a uma capela recém-construída na qual, como experiência, estávamos instalando um tipo de carpete no piso da quadra de esportes.

Enquanto várias pessoas estavam examinando o piso, o Bispo J. Richard Clarke, que na época estava servindo no Bispado Presidente, jogou de repente a bola de basquete para mim e lançou-me um desafio: “Acho que você não consegue acertar a cesta de onde você está!”

Eu estava um pouco atrás de onde hoje ficaria a linha dos três pontos num jogo profissional. Nunca tinha acertado uma cesta daquela distância em toda a minha vida. O Élder Mark E. Petersen, do Quórum dos Doze, disse para os outros: “Acho que ele consegue!”

Meus pensamentos se voltaram para a vergonha que passei quando jovem, ao arremessar a bola para a cesta errada. Mesmo assim, mirei a cesta e fiz meu arremesso. E acertei!

Jogando a bola na minha direção, o Bispo Clarke lançou-me outro desafio: “Acho que você não consegue fazer isso de novo!”

O Élder Peterson então disse: “É claro que ele consegue!”

As palavras do poeta ecoaram em meu coração: “Conduz-nos, oh conduz-nos, Grande Moldador de homens; para fora das trevas a fim de nos esforçarmos novamente”.10 Arremessei a bola. Ela subiu bem alto e caiu bem no meio da cesta.

Isso concluiu a visita de inspeção.

No almoço, o Élder Petersen me disse: “Sabe, você poderia ter sido um atleta da NBA”.

Vencer ou perder no basquete é algo que perde a importância ao contemplarmos nossos deveres como portadores do sacerdócio de Deus, tanto o Sacerdócio Aarônico quanto o de Melquisedeque. Temos o solene dever de preparar-nos pelo cumprimento dos mandamentos do Senhor e de atender aos chamados que recebemos para servi-Lo.

Nós, que fomos ordenados ao sacerdócio de Deus, podemos fazer coisas que terão conseqüências eternas. Se nos qualificarmos para receber a ajuda do Senhor, podemos educar rapazes, aperfeiçoar homens e realizar milagres em Seu santo serviço. Nossas oportunidades são ilimitadas.

Embora nossa tarefa pareça muito grande, somos fortalecidos por esta verdade: “A maior potência deste mundo atual é o poder de Deus agindo por meio do homem”. Se estivermos cumprindo aquilo que o Senhor nos ordenou, temos o direito de receber Sua ajuda. Esse auxílio divino, contudo, depende de nossa dignidade. Para navegarmos nos mares da mortalidade, para realizarmos uma missão de resgate de vidas humanas, precisamos da orientação Daquele eterno homem do mar, sim, o grande Jeová. Precisamos erguer os olhos e estender as mãos para o alto para recebermos auxílio do céu.

Será que as mãos que estendemos estão limpas? Será que nosso coração ansioso está puro? Revendo as páginas da história, encontramos uma lição sobre dignidade nas palavras do rei Dario em seu leito de morte. De acordo com os devidos ritos, Dario tinha sido reconhecido como o legítimo rei do Egito. Seu rival, Alexandre, o Grande, tinha sido declarado filho legítimo de Amon. Ele também era Faraó. Quando Alexandre encontrou Dario às portas da morte, colocou as mãos sobre a cabeça dele para curá-lo, ordenando que se erguesse e assumisse o seu poder real, dizendo: “Juro-te, Dario, por todos os deuses que faço estas coisas com sinceridade e sem falsidade”. Dario respondeu com uma gentil repreensão: “Alexandre, meu rapaz, (…) achas que podes tocar o céu com essas tuas mãos?”11

Irmãos, à medida que aprendermos nosso dever e magnificarmos os chamados que recebemos, o Senhor irá guiar-nos em nosso trabalho e tocar o coração das pessoas a quem servimos.

Há muitos anos, quando eu visitava uma viúva idosa chamada Mattie, que eu conhecia havia muito tempo, tendo sido seu bispo, meu coração se encheu de tristeza ao vê-la tão solitária. Um filho querido que morava muito longe não visitava a mãe há vários anos. Mattie passava longas horas em solitária vigília junto à janela da frente. Por trás de uma cortina entreaberta, aquela mãe desapontada dizia para si mesma: “O Dick virá; o Dick virá”.

Mas o Dick não veio. Os anos foram se passando. Então, como se um raio de sol tivesse entrado na vida de Dick, que tinha sido um de meus rapazes do Sacerdócio Aarônico, ele voltou a ser ativo na Igreja quando foi morar em Houston, Texas, bem longe de sua mãe. Ele viajou até Salt Lake para falar comigo. Telefonou-me quando chegou e com muito entusiasmo contou-me como sua vida tinha mudado. Perguntou-me se eu teria tempo de recebê-lo se fosse diretamente para meu escritório. Minha resposta foi cheia de alegria. Mas eu disse: “Dick, vá visitar sua mãe primeiro e depois venha me ver”. Ele atendeu alegremente o meu pedido.

Antes que ele chegasse a meu escritório, recebi um telefonema de Mattie, a mãe dele. Com o coração cheio de alegria ela disse, em meio às lágrimas: “Bispo, eu sabia que Dick viria. Eu lhe disse que ele viria. Eu o vi pela janela”.

Há poucos anos, no funeral de Mattie, Dick e eu conversamos ternamente sobre aquela ocasião. Tínhamos testemunhado um pequeno vislumbre do poder curativo de Deus através da janela da fé que uma mãe tinha em seu filho.

O tempo segue sua marcha. O dever acompanha essa marcha. O dever não diminui com o tempo. Conflitos catastróficos vêm e vão, mas a guerra pela alma dos homens prossegue sem cessar. Como um chamado de trombeta a palavra do Senhor vem a todos nós, portadores do sacerdócio: “Portanto agora todo homem aprenda seu dever e a agir no ofício para o qual for designado com toda diligência”.12

Que tenhamos a coragem de fazer isso, é minha oração em nome de Jesus Cristo. Amém.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

A Busca do Homem pela Verdade Divina

Élder Charles Didier
Da Presidência dos Setenta

Seguir o padrão do Senhor de ouvir e atender à verdade divina os ajudará a edificar um alicerce espiritual pessoal e a determinar o que vocês se tornarão.

Nesta imensa congregação, esta noite, há três convidados especiais — três velhos e queridos amigos de escola. Eles fizeram a longa viagem desde a Bélgica, meu país natal, para estar aqui e comemorar os cinqüenta anos de nossa formatura no ensino médio e participar desta conferência. A eles, a vocês portadores do sacerdócio, e especialmente a vocês rapazes, que estão-se preparando para ser missionários, dedico esta mensagem. Ela refere-se à busca do homem pela verdade divina. Uma vez encontrada, ela deve ser colocada em prática neste mundo, onde há cada vez mais confusão religiosa e decadência moral. Ela precisa tornar-se o nosso alicerce espiritual pessoal que nos levará a viver de acordo com os princípios da retidão. Tal como disse o Senhor: “Em retidão serás estabelecida” (3 Néfi 22:14).

Onde encontrar a verdade divina? Ela está em “ouvir a voz do Senhor, ouvir a voz de seus servos e atender às palavras dos profetas e apóstolos” (ver D&C 1:14). Ouvir e atender. Ouvir é relativamente simples. Atender e colocar em prática o que foi ouvido é o constante desafio da vida.

Em primeiro lugar, ouçam a voz do Senhor. A comunicação do Senhor referente à verdade divina ou conhecimento espiritual se encontra nas escrituras. Chama-se revelação, que significa literalmente “tornar conhecido ou descobrir” (Bible Dictionary, “Revelation”, p. 762). Ela é dada para que “compreendamos e saibamos como adorar e saibamos o que adorar” (ver D&C 93:19). O Élder Neal A. Maxwell disse: “Somente com revelação podemos fazer o trabalho do Senhor de acordo com a vontade Dele, à maneira Dele e de acordo com a escolha Dele do momento certo” (“Revelação”, Primeira Reunião Mundial de Treinamento de Liderança, janeiro de 2003, p. 5). “Sem revelação, tudo seriam conjecturas, trevas e confusão” (Bible Dictionary, p. 762).

Em segundo lugar, ouçam a voz de Seus servos. A revelação ou a verdade divina é transmitida pela vontade do Senhor a Seus servos, de diversas maneiras e em diferentes ocasiões, e também se encontra nas escrituras. “Certamente o Senhor Deus não fará coisa alguma, sem ter revelado o seu segredo aos seus servos, os profetas” (Amós 3:7).

Em terceiro lugar, atendam às palavras dos profetas e apóstolos. Atender é prestar especial atenção. É ouvir aqueles que foram chamados por Deus para serem testemunhas especiais vivas de Jesus Cristo em nossos dias. Significa reconhecermos o papel dos profetas, recebermos uma resposta referente ao convite feito por eles, termos a confirmação espiritual pessoal da verdade de seus ensinamentos e assumirmos o compromisso de segui-los.

Em resumo, o Senhor tem um padrão para transmitir a verdade divina aos profetas para guiar-nos e abençoar-nos em meio aos desafios e males da vida: Ouvir e atender. Nosso alicerce espiritual pessoal precisa ser edificado sobre esse padrão, se quisermos desfrutar as bênçãos do Senhor. Portanto, não é suficiente examinar as escrituras para conhecer a mente do Senhor. Isso precisa ser seguido de um ato de fé em que aceitamos fazer a vontade do Senhor pela obediência a Seus mandamentos, antes de podermos desfrutar as bênçãos que Ele nos dá. A confirmação espiritual pessoal desse processo, em que pedimos e acreditamos que receberemos, é a oração mais importante de nossa vida.

Na verdade, a comunicação da verdade divina pode ser resumida em três palavras: revelação, mandamentos e bênçãos. Contudo, será um desafio para toda a vida ouvir primeiro e depois atender a voz do Senhor e de Seus servos. Por quê? “Porque o homem natural é inimigo de Deus (…) e sê-lo-á para sempre; a não ser que ceda ao influxo do Santo Espírito” (Mosias 3:19). A preparação espiritual é um pré-requisito para recebermos impressões espirituais pessoais. O restante do versículo diz que precisamos tornar-nos “santo[s] pela expiação de Cristo, o Senhor”, e também tornar-nos “como uma criança”, submissos, mansos, humildes, pacientes, cheios de amor, dispostos a submeter-nos à vontade do Senhor, ou seja, a Seus mandamentos. Então, o Senhor disse que: “quando recebemos uma bênção (…), é por obediência à lei na qual ela se baseia” (D&C 130:21).

Procuremos compreender esse padrão por meio de um exemplo recente do processo de ouvir e depois atender às palavras dos profetas e apóstolos de nossos dias. A Primeira Presidência recentemente convidou todos os membros da Igreja a lerem, antes do fim do ano, o Livro de Mórmon: Outro Testamento de Jesus Cristo, O desafio terminou com uma promessa: “[Vocês] serão abençoados com mais do Espírito do Senhor, uma determinação mais firme de obedecer a Seus mandamentos e um testemunho mais forte da realidade viva do Filho de Deus” (Carta da Primeira Presidência, 25 de julho de 2005).

Por que precisamos aumentar nosso testemunho da realidade viva do Filho de Deus como se encontra no Livro de Mórmon? Existe hoje muita confusão no mundo cristão a respeito da doutrina de Cristo — não apenas sobre Sua natureza divina, mas até sobre a Expiação e Ressurreição, o evangelho e especialmente os mandamentos relacionados ao evangelho. O resultado é a crença num Cristo criado pelo homem, um Cristo popular e um Cristo calado e crucificado. Crenças religiosas erradas conduzem a um comportamento religioso errado.

Um alicerce espiritual pessoal pode e precisa depender de uma confirmação espiritual pessoal dada pelo Espírito Santo da realidade viva de Jesus Cristo, dos profetas e das escrituras que contêm as revelações do Senhor. Mais especificamente, a realidade viva de Cristo está associada à Restauração de Seu evangelho e sua mensagem de que “Jesus Cristo é o Salvador do mundo, que Joseph Smith é o seu revelador e profeta nestes últimos dias e que A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias é o reino do Senhor restabelecido na Terra” (Introdução do Livro de Mórmon).

Essa confirmação espiritual pelo poder do Espírito Santo é dada de acordo com as condições do Senhor a todos que estejam dispostos a pedir com fé, acreditando que podem receber uma resposta por meio desse poder. Começa quando ouvimos a voz do Senhor, de Seus Servos, Seus profetas e apóstolos, e continua quando atendemos às palavras deles. O conhecimento espiritual da Restauração é uma questão de fé.

Gostaria de contar como foi minha própria experiência como converso, para exemplificar esse processo espiritual. Quando os missionários chegaram à nossa casa, tive o desejo de ouvir a mensagem da Restauração do evangelho. Fui motivado acima de tudo pela curiosidade. Ao ir para a Igreja, ouvi e recebi mais conhecimento espiritual. Foi interessante e gostei do que ouvi, mas faltava o essencial: Atender. Tive que edificar um alicerce espiritual pessoal sobre a viva realidade de Cristo e a confirmação de que Joseph Smith foi o profeta da Restauração. Essa confirmação só chegou quando atendi e coloquei a fé à prova que começava a ter no Livro de Mórmon, a prova física da revelação moderna.

Contudo, não foi suficiente adquirir esse conhecimento; foi preciso então o compromisso de transformar minha fé em certeza de que o Livro de Mórmon era verdadeiro e que, portanto, Joseph Smith era um profeta. Nunca questionei minha fé em Cristo. Eu confiava no Senhor e em Suas promessas. Uma paz em minha mente, uma paz interior foi a resposta — não houve mais dúvidas. O alicerce espiritual foi estabelecido e seguiu-se um compromisso de aceitar no coração o convênio do batismo. Depois, veio o dom do Espírito Santo para guiar-me e ajudar-me a tomar decisões dignas para perseverar até o fim. Daí em diante, passei a saber o que fazer de meu futuro nesta vida mortal.

Coloquem a revelação divina à prova. Ouçam a voz do Senhor. Ela é real, pessoal e verdadeira. A razão não substitui nem pode substituir a revelação. Citando o Presidente James E. Faust: “Não deixem que suas dúvidas pessoais os afastem da fonte divina de conhecimento” (“Eu Creio, Senhor! Ajuda a Minha Incredulidade”, A Liahona, novembro de 2003, p. 22).

Coloquem à prova e sintam em sua mente o vigoroso efeito da palavra de Deus, como proferida pelos servos do Senhor (ver Alma 31:5).

Testem, peçam e recebam com fé, depois atendam às palavras dos profetas e apóstolos, e então vocês “receberão uma coroa de vida eterna” (D&C 20:14).

Para terminar, lembrem-se de que seguir o padrão do Senhor de ouvir e atender à verdade divina os ajudará a edificar um alicerce espiritual pessoal e a determinar o que vocês se tornarão nesta vida e na vida futura.

Em nome de Jesus Cristo. Amém.

sábado, 3 de setembro de 2011

Você Sabe o Suficiente

Élder Neil L. Andersen
Da Presidência dos Setenta

Somos discípulos do Senhor Jesus Cristo e, por isso, temos enormes reservas espirituais de luz e verdade a nosso dispor. (…) Em nossos momentos de dificuldade, escolhemos o caminho da fé.

Regozijo-me com vocês por ser membro da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. Enquanto o Presidente Monson nos dava a maravilhosa notícia de que teremos cinco novos templos, pensei em como no mundo todo, em todos os continentes, nas grandes cidades e pequenas aldeias, somos uma grande família de fiéis. Juntos, começamos a marchar rumo à vida eterna. É a maior de todas as jornadas. Prosseguimos tomando sobre nós “o nome de Cristo, com a firme resolução de servi-lo até o fim”.1

Embora tenhamos muitas experiências como a que temos hoje, cheia de vigor e confirmação espirituais, também haverá dias em que nos sentiremos incapazes e despreparados, em que teremos dúvidas e confusão no espírito, em que teremos dificuldade para encontrar nosso apoio espiritual. Parte de nossa vitória como discípulos de Cristo está no que fazemos quando temos esses sentimentos.

Há quase 40 anos, quando enfrentava o desafio de uma missão, sentia-me muito incapaz e despreparado. Lembro-me de ter orado: “Pai Celestial, como posso servir em uma missão, se sei tão pouco?” Eu acreditava na Igreja, mas sentia que meu conhecimento espiritual era muito limitado. Enquanto orava, tive este sentimento: “Você não sabe tudo, mas sabe o suficiente!” Essa confirmação me deu coragem de dar o passo seguinte para entrar no campo missionário.

Nossa jornada espiritual é um processo de toda uma vida. Não sabemos tudo no começo, ou mesmo durante o caminho. Nossa conversão vem passo a passo, linha sobre linha. Edificamos, primeiro, um alicerce de fé no Senhor Jesus Cristo. Entesouramos os princípios e as ordenanças do arrependimento, batismo e recebimento do dom do Espírito Santo. Incluímos o constante compromisso de orar, a disposição de ser obedientes e um testemunho contínuo do Livro de Mórmon. (O Livro de Mórmon é um poderoso nutriente espiritual.)

Então, continuamos firmes e pacientes, enquanto progredimos através da mortalidade. Às vezes, a resposta do Senhor será: você não sabe tudo, mas sabe o suficiente — o suficiente para guardar os mandamentos e fazer o que é certo. Lembre-se das palavras de Néfi: “Sei que ele ama seus filhos; não conheço, no entanto, o significado de todas as coisas”.2

Certa vez, visitei uma missão no sul da Europa. Cheguei no dia em que um novo missionário estava se preparando para voltar para casa por insistência própria. Sua passagem era para viajar no dia seguinte.

Sentamo-nos juntos na casa do presidente da missão. O missionário me contou sobre sua infância difícil, sua dificuldade para aprender, sua mudança de uma família para outra. Falou sinceramente sobre sua incapacidade de aprender um novo idioma e de se adaptar a uma nova cultura. Depois, acrescentou: “Irmão Andersen, nem sequer sei se Deus me ama”. Quando ele disse essas palavras, tive um sentimento muito forte e seguro em meu espírito: “Ele sabe que Eu o amo. Ele sabe disso”.

Deixei que ele continuasse falando por mais alguns minutos e, então, eu disse: “Élder, compreendo tudo o que você disse, mas preciso corrigir uma coisa: você sabe que Deus o ama. Você sabe que sim”.

Quando eu disse essas palavras para ele, o mesmo Espírito que falara comigo, falou com ele. Ele abaixou a cabeça e começou a chorar. Pediu desculpas. “Irmão Andersen”, disse ele. “Sei que Deus me ama, eu sei que sim.” Ele não sabia tudo, mas sabia o suficiente. Ele sabia que Deus o amava. Aquele precioso conhecimento foi suficiente para que suas dúvidas fossem substituídas pela fé. Ele encontrou forças para permanecer na missão.

Irmãos e irmãs, todos nós temos momentos de força espiritual, momentos de inspiração e de revelação. Precisamos fazer com que eles penetrem profundamente em nossa alma. Ao fazermos isso, preparamos nosso armazenamento espiritual para as horas de dificuldades pessoais. Jesus disse: “Decidi em vosso coração que fareis as coisas que vos ensinarei e ordenarei”.3

Há vários anos, a filha de um amigo morreu num trágico acidente. Esperanças e sonhos foram destruídos. Meu amigo sofreu uma dor insuportável. Começou a questionar as coisas que havia aprendido e as que tinha ensinado como missionário. A mãe do meu amigo escreveu-me uma carta e perguntou se eu poderia dar-lhe uma bênção. Quando impus as mãos sobre sua cabeça, senti-me inspirado a dizer-lhe algo que nunca me ocorrera exatamente daquela maneira antes. A inspiração que tive foi: fé não é apenas um sentimento, é uma decisão. Ele precisava decidir ter fé.

Meu amigo não sabia tudo, mas sabia o suficiente. Ele escolheu o caminho da fé e da obediência. Caiu de joelhos. Seu equilíbrio espiritual foi recuperado.

Já se passaram vários anos desde aquele dia. Há pouco tempo, recebi uma carta do filho dele, que agora está servindo como missionário. Era cheia de convicção e testemunho. Quando li sua bela carta, vi como a decisão de um pai de ter fé num momento muito difícil havia abençoado profundamente a geração seguinte.

Desafios, dificuldades, dúvidas, incertezas — tudo isso faz parte da mortalidade. Mas não estamos sós. Somos discípulos do Senhor Jesus Cristo e, por isso, temos enormes reservas espirituais de luz e verdade a nosso dispor. É impossível existir temor e fé em nosso coração ao mesmo tempo! Em nossos momentos de dificuldade, escolhemos o caminho da fé. Jesus disse: “Não temas, crê somente”.4

Ao longo dos anos, repetimos esses importantes passos espirituais muitas e muitas vezes. Começamos a ver que “aquele que recebe luz e persevera em Deus recebe mais luz; e essa luz se torna mais e mais brilhante, até o dia perfeito”.5 Nossas dúvidas e incertezas são resolvidas ou se tornam menos preocupantes para nós. Nossa fé se torna simples e pura. Passamos a saber o que já sabíamos.

Jesus disse: “Se não (…) vos fizerdes como meninos, de modo algum entrareis no reino dos céus”.6

Hadley Peay tem, hoje, sete anos de idade. Ela nasceu com uma grave deficiência auditiva que exigiu muitas cirurgias para lhe garantir apenas uma audição limitada. Os pais trabalharam incansavelmente para ajudá-la a aprender a falar. Hadley e sua família adaptaram-se com bom ânimo ao desafio de sua surdez.

Certa vez, quando tinha quatro anos, Hadley estava na fila da mercearia com a mãe. Olhou para trás e viu um menino numa cadeira de rodas. Percebeu que o menino não tinha pernas.

Embora Hadley tivesse aprendido a falar, tinha dificuldade em controlar o volume da voz. Falando bem alto, perguntou à mãe por que o menino não tinha pernas.

A mãe explicou serena e simplesmente a Hadley que “o Pai Celestial criou todos os Seus filhos diferentes uns dos outros”. “Está bem”, respondeu Hadley.

Então, inesperadamente, Hadley virou-se para o menino e disse: “Sabia que, quando o Pai Celestial me criou, meus ouvidos não funcionavam? Isso me torna especial. Ele fez você sem pernas, e isso torna você especial. Quando Jesus voltar, vou poder ouvir, e você terá suas pernas. Jesus consertará todas as coisas”.

“Se não (…) vos fizerdes como meninos, de modo algum entrareis no reino dos céus.”

Hadley sabia o suficiente.

Jesus é o Cristo. Ele ressuscitou. Ele é nosso Salvador e Redentor. Tudo ficará bem quando Ele voltar. Esta é Sua santa obra. Por meio do Profeta Joseph Smith, Seu sacerdócio foi restaurado na Terra, e Seu profeta hoje é o Presidente Thomas S. Monson. Presto testemunho disso, em nome de Jesus Cristo. Amém.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Tentar o Impossível

Élder Jorge F. Zeballos
Dos Setenta

Vida eterna é viver com nosso Pai e com nossa família para todo o sempre. Não seria essa promessa o maior incentivo para fazermos o melhor que está ao nosso alcance?

Quando os doze discípulos foram chamados nas Américas, o Senhor Jesus Cristo deu-lhes este mandamento: “Portanto quisera que fôsseis perfeitos, assim como eu ou como o vosso Pai que está nos céus é perfeito”.1 O Salvador tinha acabado de concluir Sua missão bem-sucedida, abnegada e transcendental na Terra. Isso permitiu que Ele declarasse com autoridade que Ele e Seu Pai, nosso Pai, são o exemplo a ser seguido por todos nós.

De um ponto de vista puramente humano, a princípio, isso aparenta ser uma tarefa impossível. Contudo, ela começa a parecer possível quando compreendemos que não estamos sozinhos nesse empenho. Os mais maravilhosos e poderosos auxílios que um ser humano pode buscar estão ao nosso alcance. Em primeiro lugar, a mão generosa e amorosa do Pai Eterno, que deseja que retornemos a Sua presença para sempre. Por ser nosso Pai, Ele está sempre disposto a perdoar nossos erros, nossas fraquezas e os pecados que cometemos. Esse perdão depende apenas do total e sincero arrependimento. Como complemento disso — e como a maior manifestação de Seu imenso amor por todos os Seus filhos — Ele proveu-nos com os frutos da obra inigualável realizada pelo Salvador ou seja, a Expiação, efetuada por um Filho obediente sempre disposto a fazer a vontade do Pai em benefício de cada um de nós.

O Senhor revelou o seguinte ao Profeta Joseph Smith: “E se guardares meus mandamentos e perseverares até o fim, terás vida eterna, que é o maior de todos os dons de Deus”.2 Essa promessa divina é possível de ser alcançada. Vida eterna é viver com nosso Pai e com nossa família para todo o sempre.3 Não seria essa promessa o maior incentivo para fazermos o melhor que está ao nosso alcance e darmos o máximo que temos em busca do que nos foi prometido?

No início da Restauração, quando esta obra maravilhosa estava prestes a ser manifestada entre os filhos dos homens, o Senhor disse: “Portanto, ó vós que embarcais no serviço de Deus, vede que o sirvais de todo o coração, poder, mente e força, para que vos apresenteis sem culpa perante Deus no último dia”.4 De todo o coração, com todo nosso poder, com toda nossa mente e com toda nossa força — que é o mesmo que dizer, com todo nosso ser.

O Presidente David O. McKay disse: “As ricas recompensas só chegam para os que se esforçam arduamente”.5 Essas recompensas serão concedidas aos que nutrirem sua fé em Jesus Cristo e cumprirem com Sua vontade ao trabalhar, sacrificar-se e doar tudo o que receberam para fortalecer e edificar o reino de Deus.

O cumprimento da promessa divina de termos vida eterna, de alcançarmos a perfeição e de sermos felizes para sempre na unidade familiar depende da sincera demonstração de nossa fé em Jesus Cristo, da obediência aos mandamentos, da perseverança e da diligência por toda a vida.

O Senhor não espera que façamos o que não podemos realizar. O mandamento de tornar-nos perfeitos como Ele incentiva-nos a alcançar o melhor que há em nós, a descobrir e desenvolver os talentos e atributos com que fomos abençoados por um amoroso Pai Eterno, que nos convida a atingir nosso potencial como filhos de Deus. Ele nos conhece. Sabe de nossas capacidades e limitações. O convite e desafio de tornar-nos perfeitos e de alcançar a vida eterna são para toda a humanidade.

Imediatamente após ensinar que “não se exige que o homem corra mais rapidamente do que suas forças o permitam”, o rei Benjamim explicou que “é necessário que ele seja diligente, para que assim possa ganhar o galardão”.6 Deus não exige mais do que o melhor que podemos oferecer porque isso não seria justo, mas tampouco Ele pode aceitar menos do que isso, porque também não seria justo. Portanto, ofereçamos sempre o melhor que pudermos a serviço de Deus e de nosso próximo. Sirvamos em nossa família e em nossos chamados na Igreja da melhor maneira possível. Façamos o melhor que pudermos e sejamos um pouco melhores a cada dia.

A salvação e a vida eterna não seriam possíveis se não fosse pela Expiação efetuada por nosso Salvador, a Quem devemos tudo. Mas para que essas supremas bênçãos sejam eficazes em nossa vida, devemos, primeiro, fazer nossa parte, “pois sabemos que é pela graça que somos salvos, depois de tudo o que pudermos fazer”.7 Façamos com fé, entusiasmo, dedicação, responsabilidade e amor tudo o que estiver ao nosso alcance e estaremos fazendo tudo o que é possível para alcançar o impossível. Isso significa atingir o que para a mente humana é impossível, mas com a intervenção divina de nosso amoroso Pai e o sacrifício infinito efetuado por nosso Salvador, torna-se a maior das dádivas, a mais gloriosa realidade, viver para sempre com Deus e com nossa família.

Oro para que todos nos lembremos e permanentemente renovemos, ao tomar dignamente o sacramento, o compromisso que assumimos com nosso Pai Celestial no momento em que entramos nas águas do batismo, e quando recebemos cada uma das ordenanças do evangelho restaurado. Oro para que façamos o melhor que pudermos em nosso papel de cônjuge, pais, filhos, irmãos e irmãs, em nossos chamados, na divulgação do evangelho, no resgate dos que se afastaram, no trabalho pela salvação de nossos antepassados, em nosso emprego e em nossa vida diária.

Oro para que nossa vida nos permita declarar, tal como fez o Apóstolo Paulo: “Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé”.8

Ao fazermos isso, estaremos satisfazendo os requisitos determinados por nosso Pai Celestial para abençoar-nos mais do que nunca, tanto nesta vida como na eternidade. Ele anseia por dar-nos tudo o que tem, sim, por fazer-nos participantes de Sua maior dádiva, que é a vida eterna.

Portanto, mesmo que de um ponto de vista puramente humano a perfeição pareça um desafio impossível de ser atingido, testifico que nosso Pai e nosso Salvador nos ensinaram que é possível alcançar o impossível. Sim, é possível alcançar a vida eterna. Sim, é possível sermos felizes hoje e para sempre.

O autor do plano perfeito que contém essas gloriosas promessas é nosso Pai Celestial, e Ele vive. Seu Filho Jesus Cristo tomou sobre Si o fardo de nossos pecados e as injustiças que são cometidas no mundo para que possamos livrar-nos de suas consequências. Sei que nosso Senhor Jesus Cristo vive. O evangelho e o sacerdócio foram restaurados na Terra pela última vez por intermédio do Profeta Joseph Smith. Contamos hoje com a enorme bênção de ter apóstolos e profetas chamados por Deus para dirigir-nos na estrada que conduz de volta ao nosso Pai. O Presidente Thomas S. Monson foi chamado para liderar essa grande obra nestes nossos dias. Ele é um profeta de Deus. Presto testemunho disso em nome de Jesus Cristo. Amém.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Saber que Sabemos


Élder Douglas L. Callister
Dos Setenta

O testemunho das outras pessoas pode iniciar e nutrir o desejo de ter fé e testemunho, mas, no final, cada pessoa precisa descobrir por si mesma.

Há vários anos, um homem foi acusado de um crime grave. A promotoria apresentou três testemunhas, e todas tinham visto o homem cometer o crime. Depois, a defesa apresentou três testemunhas, e nenhuma delas tinha visto o crime ser cometido. O júri ficou confuso. Com base no número de testemunhas, as provas lhes pareciam igualmente divididas. O homem foi inocentado. É óbvio que não importava que incontáveis milhões não tivessem visto o crime: só precisava haver uma testemunha.

No plano do evangelho, só é realmente necessário haver uma testemunha, mas ela precisa ser você. O testemunho das outras pessoas pode iniciar e nutrir o desejo de ter fé e testemunho, mas, no final, cada pessoa precisa descobrir por si mesma. Ninguém pode perseverar para sempre com luz emprestada.

O evangelho restaurado não é mais verdadeiro hoje do que o era quando um menino solitário saiu do Bosque Sagrado, em 1820. A verdade nunca dependeu do número de pessoas que a aceitam. Quando Joseph saiu do bosque, havia uma única pessoa na Terra que sabia a verdade acerca de Deus, o Pai, e de Seu Filho Jesus Cristo. É necessário, porém, que cada um de nós descubra isso por si mesmo e leve esse ardente testemunho para a vida futura.

Quando, aos 23 anos, Heber J. Grant foi chamado para presidir a Estaca Tooele, disse aos santos que acreditava que o evangelho era verdadeiro. O Presidente Joseph F. Smith, que era conselheiro na Primeira Presidência, perguntou: “Heber, você disse que acreditava no evangelho do fundo do coração, mas não prestou seu testemunho de que sabe que ele é verdadeiro. Você não tem certeza absoluta de que o evangelho é verdadeiro?”

Heber respondeu: “Não, não tenho”. Joseph F. Smith virou-se para John Taylor, que era presidente da Igreja, e disse: “Em minha opinião, devemos desfazer agora à tarde o que fizemos pela manhã. Não creio que um homem deva presidir uma estaca sem um conhecimento perfeito e inabalável da divindade desta obra”.

O Presidente Taylor respondeu: “Joseph, Joseph, Joseph, [Heber] sabe tão bem quanto você. A diferença é que ele ainda não sabe que sabe”.1

Em poucas semanas, esse testemunho foi reconhecido, e o jovem Heber J. Grant verteu lágrimas de gratidão pelo perfeito, inabalável e absoluto testemunho que recebeu nesta vida.

É muito importante saber — e saber que sabemos — e que a luz não foi tomada emprestada de outra pessoa.

Há vários anos, presidi uma missão sediada no Centro-Oeste dos Estados Unidos. Certo dia, com um pequeno grupo de missionários, falei com um renomado representante de outra igreja cristã. Esse homem tão afável falou da história e da doutrina de sua própria religião e, em certo ponto, disse estas palavras bem conhecidas: “‘Pela graça sois salvos.’ Todos precisam ter fé em Cristo para serem salvos”.

Entre os presentes, havia um missionário novo. Ele não sabia quase nada de outras religiões e teve que perguntar: “Mas, senhor, o que acontece com o bebezinho que morre antes de ter idade suficiente para compreender e para exercer fé em Cristo?” Aquele homem instruído abaixou a cabeça, olhou para o chão e disse: “Deveria haver uma exceção. Deveria haver uma saída. Deveria haver um meio, mas não há”.

O missionário olhou para mim e, com lágrimas nos olhos, disse: “Puxa, presidente, nós realmente temos a verdade, não é mesmo?”

O momento em que nos damos conta de nosso testemunho, o momento em que percebemos que sabemos, é doce e sublime. Esse testemunho, se nutrido, envolve-nos como um manto. Quando vemos a luz, somos envolvidos por ela. A luz da compreensão se acende dentro de nós.

Conversei certa vez com um excelente rapaz que não era da nossa religião, embora tivesse assistido à maior parte de nossas reuniões de adoração por mais de um ano. Perguntei por que ele não havia-se filiado à Igreja. Ele respondeu: “Porque não sei se ela é verdadeira. Acho que ela pode muito bem ser verdadeira, mas não posso levantar-me e testificar, como vocês fazem: ‘Sei, sem dúvida, que é verdadeira’”.

Perguntei: “Você já leu o Livro de Mórmon?” Ele respondeu que tinha lido algumas partes do livro.

Perguntei se tinha orado a respeito do livro. Ele respondeu: “Eu o mencionei em minhas orações”.

Disse a esse jovem amigo que, enquanto ele fosse superficial em sua leitura e orações, jamais descobriria, nem que se passasse uma eternidade. Mas, se ele reservasse uma ocasião para jejum e súplica, a verdade arderia em seu coração, e então saberia que sabia. Ele não falou mais nada, mas disse à esposa, na manhã seguinte, que faria um jejum. No sábado seguinte, foi batizado.

Se você quiser saber que sabe o que sabe, é preciso pagar o preço. E só você pode pagar esse preço. Há procuradores para realizar as ordenanças, mas não para adquirir um testemunho.

Alma descreveu a conversão com estas belas palavras: “Eis que jejuei e orei durante muitos dias, a fim de saber estas coisas por mim mesmo. E agora sei por mim mesmo que são verdadeiras, porque o Senhor Deus mas revelou (Alma 5:46)”.

Quando nos damos conta do testemunho, surge um desejo ardente de prestar esse testemunho a outras pessoas. Quando Brigham Young saiu das águas do batismo, ele disse: “O Espírito do Senhor estava sobre mim, e senti que meus ossos se consumiriam a menos que eu falasse para as pessoas (...). O primeiro discurso que fiz na vida durou mais de uma hora. Abri a boca, e o Senhor falou por mim”.2 Assim como o fogo não queima, a menos que a chama seja exposta, o testemunho não pode perdurar se não for expresso.

Brigham Young disse o seguinte, sobre Orson Pratt: “Se o irmão Orson [fosse] cortado em pedacinhos, cada um deles gritaria: ‘o mormonismo [é] verdadeiro’”.3 O patriarca Leí louvou seu nobre filho Néfi com estas palavras: “Eis porém que não foi ele, mas sim o Espírito do Senhor que estava nele que lhe abriu a boca para falar, de maneira que não podia fechá-la (2 Néfi 1:27)”.

A oportunidade e a responsabilidade de prestar testemunho ocorrem, em primeiro lugar, no ambiente familiar. Devemos agir de modo que nossos filhos se lembrem do brilho em nosso olhar, do som de nosso testemunho vibrante em seus ouvidos e do que sentiram no coração quando prestamos a eles — nosso público mais precioso — o testemunho de que Jesus é mesmo Filho do próprio Deus e que Joseph foi Seu profeta. Nossa posteridade precisa saber que sabemos, porque lhe dizemos isso com freqüência.

Os primeiros líderes da Igreja pagaram um alto preço para estabelecer esta dispensação. Talvez nos encontremos com eles, no mundo vindouro, e ouçamos seu testemunho. Quando formos chamados a testificar, o que diremos? Haverá verdadeiros bebês e verdadeiros gigantes nas coisas espirituais, no mundo vindouro. A eternidade é um tempo demasiadamente longo para se viver sem luz, especialmente se nosso cônjuge e nossos descendentes também viverem nas trevas porque não havia luz dentro de nós e, por isso, outros não puderam acender suas lâmpadas.

Devemos ajoelhar-nos todas as manhãs e todas as noites e implorar ao Senhor que nunca percamos a fé, o testemunho ou a virtude. Só é realmente necessário haver uma testemunha, mas ela precisa ser você.

Eu tenho testemunho. Ele anseia por ser expresso. Presto testemunho de que o poder do Deus vivo está nesta Igreja. Eu sei que sei, e meu testemunho é verdadeiro, em nome de Jesus Cristo. Amém.

domingo, 7 de agosto de 2011

O Presente

Élder Lance B. Wickman
Dos Setenta

Contanto que tenhamos vivido o Presente de maneira a fazermos jus à graça purificadora da Expiação, viveremos eternamente com Deus.

Três semanas atrás, fiz uma incursão pelo Passado. Naquele momento, redescobri o Presente. E é sobre o Presente que desejo falar hoje.

Uma designação da Igreja me levou das vastas áreas do Pacífico ao Vietnã. Para mim, foi mais do que a mera travessia aérea de um oceano: foi uma viagem no tempo. Há mais de 40 anos eu servira nos campos de batalha daquele país como oficial de infantaria. Lembranças desse local ficaram profundamente gravadas na minha mente, bem como a de seu povo e dos companheiros de guerra com quem lutara. Jacó escreveu certa vez: “Nossa vida (…) passou como se fosse um sonho” (Jacó 7:26). Foi exatamente assim comigo. E agora eu estava voltando das minhas lembranças para aquele lugar, depois de quase meio século. Ao terminar minhas atribuições da Igreja, decidi visitar de novo aqueles campos onde haviam sido travadas terríveis batalhas. Acompanhado pela minha querida esposa, comecei a peregrinação.

Nem sabia o que esperar depois de tantos anos. E o que vi foi de fato surpreendente. Em vez de um povo destruído pela guerra, achei uma população jovial e vibrante. Em vez de uma zona rural devastada pelo fogo de artilharia, deparei-me com campos serenos e verdejantes. Até a selva parecia ter renascido. Creio que, de certa forma, eu esperava defrontar-me com o Passado, mas o que achei foi o Presente — e a promessa de um Futuro brilhante. Lembrei que “(…) O choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã” (Salmos 30:5).

Ao andar de novo no campo e numa trilha da floresta, voltei a ouvir mentalmente o matraquear de metralhadoras, o silvo de estilhaços e o barulho de armas menores. Tornei a ver o rosto bronzeado de jovens amigos que, como prova de devoção, fizeram o sacrifício supremo. E pensei num deles, em um dia em particular — um único dia — 3 de abril de 1966. Era Domingo de Ramos — época de Páscoa. Já faz quase 42 anos, e quase nesta mesma época.

Nosso batalhão de infantaria chegara ao Vietnã vários meses antes. Eu era tenente, líder de um pelotão de infantaria. Estávamos envolvidos quase constantemente em operações de combate. Amanhecera e nosso batalhão estava bem no meio do território inimigo. Logo no início da manhã, mandei uma patrulha de reconhecimento de cerca de 10 homens. Um deles era o Sargento Arthur Morris. Nessa missão, muitos homens foram atingidos por tiros, inclusive o Sargento Morris que sofrera um ferimento leve. Por fim, os integrantes da patrulha voltaram mancando até onde estávamos.

Mandamos uma mensagem pelo rádio pedindo um helicóptero. Ao encaminhar os feridos ao helicóptero, disse ao Sargento Morris que também entrasse. Ele ficou hesitante. Mais uma vez, disse-lhe que embarcasse. Novamente se mostrou reticente. Insisti com ele, mas ele tornou a recusar. Por fim, dei uma ordem: “Sargento Morris, entre no helicóptero”. Lançou-me um olhar suplicante, como que implorando: “Por favor, senhor” e pronunciou estas palavras que jamais esquecerei: “Eles não conseguirão matar um sujeito durão como eu”.

A cena inteira ficou gravada na minha mente como um quadro de batalha: a clareira na floresta, o barulho palpitante e ensurdecedor da hélice, o piloto a olhar-me impaciente e meu amigo insistindo para ficar com seus companheiros. Acabei cedendo e fiz sinal para o helicóptero partir, levando consigo a esperança de Futuro. Antes do pôr-do-sol daquele mesmo dia, meu caro amigo, o Sargento Arthur Cyrus Morris, caiu morto, atingido por fogo inimigo. E na minha mente continua a ecoar sem cessar sua exclamação: “Eles não conseguirão matar, não conseguirão matar, não conseguirão matar…”

É claro que, de certa forma, ele estava terrivelmente enganado. A mortalidade é extremamente frágil. Somente um batimento cardíaco ou um suspiro separa este mundo do próximo. Num instante, meu amigo era uma pessoa cheia de vida e energia; no outro, seu espírito imortal partira, deixando o tabernáculo mortal como uma massa de argila inerte. A morte é um umbral que todos atravessarão. Assim como o Sargento Arthur Morris, nenhum de nós sabe quando esse momento chegará. De todos os desafios que enfrentamos, talvez o maior seja a sensação errônea de que a mortalidade dura para sempre e a impressão que disso decorre: a de podermos adiar o momento de pedir e oferecer o perdão, que é, conforme ensina o evangelho de Jesus Cristo, um dos principais propósitos da mortalidade.

Esta profunda verdade é ensinada por Amuleque no Livro de Mórmon:

“Pois eis que esta vida é o tempo para os homens prepararem-se para encontrar Deus; sim, eis que o dia desta vida é o dia para os homens executarem os seus labores. (…) [Portanto], que não deixeis o dia do arrependimento para o fim; (…) porque o mesmo espírito que possuir vosso corpo quando deixardes esta vida, esse mesmo espírito terá poder para possuir vosso corpo naquele mundo eterno” (Alma 34:32–34; grifo do autor).

Que expressão forte Amuleque usa: o “dia desta vida!” O apóstolo Tiago expressa essa idéia da seguinte forma: “Digo-vos que não sabeis o que acontecerá amanhã. Porque, que é a vossa vida? É um vapor que aparece por um pouco, e depois se desvanece” (Tiago 4:14). E a pessoa que somos quando partimos desta vida é a pessoa que seremos quando ingressarmos na próxima. Devemos ser gratos por termos o Presente.

Apesar de terrivelmente equivocado, de certa forma o Sargento Morris também estava certo! Somos de fato imortais, na medida em que a Expiação de Cristo vence a morte, tanto física quanto espiritual. E contanto que tenhamos vivido o Presente de maneira a fazermos jus à graça purificadora da Expiação, viveremos eternamente com Deus. Esta vida não é um período para apenas possuirmos e acumularmos, mas sobretudo para doarmos e nos aperfeiçoarmos. A mortalidade é o campo de batalha no qual se confrontam a justiça e a misericórdia. Mas elas não precisam se contrapor, pois se reconciliam na Expiação de Jesus Cristo para todos os que fizerem uso sábio do Presente.

Compete-nos assim tanto pedir quanto oferecer esse perdão, a fim de nos arrependermos e sermos caridosos com o próximo, o que nos permite passar pela porta que o Salvador mantém aberta e que constitui o limiar desta vida para a exaltação. O Presente é o dia de perdoarmos as “ofensas” alheias, com o conhecimento seguro de que assim o Senhor perdoará as nossas. Lucas declarou de modo significativo: “Sede, pois, misericordiosos” (ver Lucas 6:36; grifo do autor). Talvez a perfeição nos escape nesta vida, mas podemos ser misericordiosos. E no fim, o arrependimento e o perdão estão entre as principais exigências de Deus para nós.

Ao fim da minha viagem pelo tempo, olhei os campos serenos do Presente e vi em sua fertilidade a promessa do Futuro. Pensei no meu amigo, o Sargento Arthur Cyrus Morris. Pensei naquele longínquo e fatídico Domingo de Ramos. E senti profunda gratidão pelo Redentor da manhã de Páscoa que nos concede a vida, Aquele que, ao descer abaixo de todas as coisas nos permite erguer-nos acima de todas as coisas — no Futuro. . . mas isso apenas se fizermos bom uso do Presente. Em nome de Jesus Cristo. Amém.

ELA ME TROCOU POR UM ZUMBI

O ônibus comprido com várias portas havia chegado ao seu destino. sentia satisfação pelo sucesso da viagem. Desci pela porta dianteira e ela...