quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Tentar o Impossível

Élder Jorge F. Zeballos
Dos Setenta

Vida eterna é viver com nosso Pai e com nossa família para todo o sempre. Não seria essa promessa o maior incentivo para fazermos o melhor que está ao nosso alcance?

Quando os doze discípulos foram chamados nas Américas, o Senhor Jesus Cristo deu-lhes este mandamento: “Portanto quisera que fôsseis perfeitos, assim como eu ou como o vosso Pai que está nos céus é perfeito”.1 O Salvador tinha acabado de concluir Sua missão bem-sucedida, abnegada e transcendental na Terra. Isso permitiu que Ele declarasse com autoridade que Ele e Seu Pai, nosso Pai, são o exemplo a ser seguido por todos nós.

De um ponto de vista puramente humano, a princípio, isso aparenta ser uma tarefa impossível. Contudo, ela começa a parecer possível quando compreendemos que não estamos sozinhos nesse empenho. Os mais maravilhosos e poderosos auxílios que um ser humano pode buscar estão ao nosso alcance. Em primeiro lugar, a mão generosa e amorosa do Pai Eterno, que deseja que retornemos a Sua presença para sempre. Por ser nosso Pai, Ele está sempre disposto a perdoar nossos erros, nossas fraquezas e os pecados que cometemos. Esse perdão depende apenas do total e sincero arrependimento. Como complemento disso — e como a maior manifestação de Seu imenso amor por todos os Seus filhos — Ele proveu-nos com os frutos da obra inigualável realizada pelo Salvador ou seja, a Expiação, efetuada por um Filho obediente sempre disposto a fazer a vontade do Pai em benefício de cada um de nós.

O Senhor revelou o seguinte ao Profeta Joseph Smith: “E se guardares meus mandamentos e perseverares até o fim, terás vida eterna, que é o maior de todos os dons de Deus”.2 Essa promessa divina é possível de ser alcançada. Vida eterna é viver com nosso Pai e com nossa família para todo o sempre.3 Não seria essa promessa o maior incentivo para fazermos o melhor que está ao nosso alcance e darmos o máximo que temos em busca do que nos foi prometido?

No início da Restauração, quando esta obra maravilhosa estava prestes a ser manifestada entre os filhos dos homens, o Senhor disse: “Portanto, ó vós que embarcais no serviço de Deus, vede que o sirvais de todo o coração, poder, mente e força, para que vos apresenteis sem culpa perante Deus no último dia”.4 De todo o coração, com todo nosso poder, com toda nossa mente e com toda nossa força — que é o mesmo que dizer, com todo nosso ser.

O Presidente David O. McKay disse: “As ricas recompensas só chegam para os que se esforçam arduamente”.5 Essas recompensas serão concedidas aos que nutrirem sua fé em Jesus Cristo e cumprirem com Sua vontade ao trabalhar, sacrificar-se e doar tudo o que receberam para fortalecer e edificar o reino de Deus.

O cumprimento da promessa divina de termos vida eterna, de alcançarmos a perfeição e de sermos felizes para sempre na unidade familiar depende da sincera demonstração de nossa fé em Jesus Cristo, da obediência aos mandamentos, da perseverança e da diligência por toda a vida.

O Senhor não espera que façamos o que não podemos realizar. O mandamento de tornar-nos perfeitos como Ele incentiva-nos a alcançar o melhor que há em nós, a descobrir e desenvolver os talentos e atributos com que fomos abençoados por um amoroso Pai Eterno, que nos convida a atingir nosso potencial como filhos de Deus. Ele nos conhece. Sabe de nossas capacidades e limitações. O convite e desafio de tornar-nos perfeitos e de alcançar a vida eterna são para toda a humanidade.

Imediatamente após ensinar que “não se exige que o homem corra mais rapidamente do que suas forças o permitam”, o rei Benjamim explicou que “é necessário que ele seja diligente, para que assim possa ganhar o galardão”.6 Deus não exige mais do que o melhor que podemos oferecer porque isso não seria justo, mas tampouco Ele pode aceitar menos do que isso, porque também não seria justo. Portanto, ofereçamos sempre o melhor que pudermos a serviço de Deus e de nosso próximo. Sirvamos em nossa família e em nossos chamados na Igreja da melhor maneira possível. Façamos o melhor que pudermos e sejamos um pouco melhores a cada dia.

A salvação e a vida eterna não seriam possíveis se não fosse pela Expiação efetuada por nosso Salvador, a Quem devemos tudo. Mas para que essas supremas bênçãos sejam eficazes em nossa vida, devemos, primeiro, fazer nossa parte, “pois sabemos que é pela graça que somos salvos, depois de tudo o que pudermos fazer”.7 Façamos com fé, entusiasmo, dedicação, responsabilidade e amor tudo o que estiver ao nosso alcance e estaremos fazendo tudo o que é possível para alcançar o impossível. Isso significa atingir o que para a mente humana é impossível, mas com a intervenção divina de nosso amoroso Pai e o sacrifício infinito efetuado por nosso Salvador, torna-se a maior das dádivas, a mais gloriosa realidade, viver para sempre com Deus e com nossa família.

Oro para que todos nos lembremos e permanentemente renovemos, ao tomar dignamente o sacramento, o compromisso que assumimos com nosso Pai Celestial no momento em que entramos nas águas do batismo, e quando recebemos cada uma das ordenanças do evangelho restaurado. Oro para que façamos o melhor que pudermos em nosso papel de cônjuge, pais, filhos, irmãos e irmãs, em nossos chamados, na divulgação do evangelho, no resgate dos que se afastaram, no trabalho pela salvação de nossos antepassados, em nosso emprego e em nossa vida diária.

Oro para que nossa vida nos permita declarar, tal como fez o Apóstolo Paulo: “Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé”.8

Ao fazermos isso, estaremos satisfazendo os requisitos determinados por nosso Pai Celestial para abençoar-nos mais do que nunca, tanto nesta vida como na eternidade. Ele anseia por dar-nos tudo o que tem, sim, por fazer-nos participantes de Sua maior dádiva, que é a vida eterna.

Portanto, mesmo que de um ponto de vista puramente humano a perfeição pareça um desafio impossível de ser atingido, testifico que nosso Pai e nosso Salvador nos ensinaram que é possível alcançar o impossível. Sim, é possível alcançar a vida eterna. Sim, é possível sermos felizes hoje e para sempre.

O autor do plano perfeito que contém essas gloriosas promessas é nosso Pai Celestial, e Ele vive. Seu Filho Jesus Cristo tomou sobre Si o fardo de nossos pecados e as injustiças que são cometidas no mundo para que possamos livrar-nos de suas consequências. Sei que nosso Senhor Jesus Cristo vive. O evangelho e o sacerdócio foram restaurados na Terra pela última vez por intermédio do Profeta Joseph Smith. Contamos hoje com a enorme bênção de ter apóstolos e profetas chamados por Deus para dirigir-nos na estrada que conduz de volta ao nosso Pai. O Presidente Thomas S. Monson foi chamado para liderar essa grande obra nestes nossos dias. Ele é um profeta de Deus. Presto testemunho disso em nome de Jesus Cristo. Amém.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Saber que Sabemos


Élder Douglas L. Callister
Dos Setenta

O testemunho das outras pessoas pode iniciar e nutrir o desejo de ter fé e testemunho, mas, no final, cada pessoa precisa descobrir por si mesma.

Há vários anos, um homem foi acusado de um crime grave. A promotoria apresentou três testemunhas, e todas tinham visto o homem cometer o crime. Depois, a defesa apresentou três testemunhas, e nenhuma delas tinha visto o crime ser cometido. O júri ficou confuso. Com base no número de testemunhas, as provas lhes pareciam igualmente divididas. O homem foi inocentado. É óbvio que não importava que incontáveis milhões não tivessem visto o crime: só precisava haver uma testemunha.

No plano do evangelho, só é realmente necessário haver uma testemunha, mas ela precisa ser você. O testemunho das outras pessoas pode iniciar e nutrir o desejo de ter fé e testemunho, mas, no final, cada pessoa precisa descobrir por si mesma. Ninguém pode perseverar para sempre com luz emprestada.

O evangelho restaurado não é mais verdadeiro hoje do que o era quando um menino solitário saiu do Bosque Sagrado, em 1820. A verdade nunca dependeu do número de pessoas que a aceitam. Quando Joseph saiu do bosque, havia uma única pessoa na Terra que sabia a verdade acerca de Deus, o Pai, e de Seu Filho Jesus Cristo. É necessário, porém, que cada um de nós descubra isso por si mesmo e leve esse ardente testemunho para a vida futura.

Quando, aos 23 anos, Heber J. Grant foi chamado para presidir a Estaca Tooele, disse aos santos que acreditava que o evangelho era verdadeiro. O Presidente Joseph F. Smith, que era conselheiro na Primeira Presidência, perguntou: “Heber, você disse que acreditava no evangelho do fundo do coração, mas não prestou seu testemunho de que sabe que ele é verdadeiro. Você não tem certeza absoluta de que o evangelho é verdadeiro?”

Heber respondeu: “Não, não tenho”. Joseph F. Smith virou-se para John Taylor, que era presidente da Igreja, e disse: “Em minha opinião, devemos desfazer agora à tarde o que fizemos pela manhã. Não creio que um homem deva presidir uma estaca sem um conhecimento perfeito e inabalável da divindade desta obra”.

O Presidente Taylor respondeu: “Joseph, Joseph, Joseph, [Heber] sabe tão bem quanto você. A diferença é que ele ainda não sabe que sabe”.1

Em poucas semanas, esse testemunho foi reconhecido, e o jovem Heber J. Grant verteu lágrimas de gratidão pelo perfeito, inabalável e absoluto testemunho que recebeu nesta vida.

É muito importante saber — e saber que sabemos — e que a luz não foi tomada emprestada de outra pessoa.

Há vários anos, presidi uma missão sediada no Centro-Oeste dos Estados Unidos. Certo dia, com um pequeno grupo de missionários, falei com um renomado representante de outra igreja cristã. Esse homem tão afável falou da história e da doutrina de sua própria religião e, em certo ponto, disse estas palavras bem conhecidas: “‘Pela graça sois salvos.’ Todos precisam ter fé em Cristo para serem salvos”.

Entre os presentes, havia um missionário novo. Ele não sabia quase nada de outras religiões e teve que perguntar: “Mas, senhor, o que acontece com o bebezinho que morre antes de ter idade suficiente para compreender e para exercer fé em Cristo?” Aquele homem instruído abaixou a cabeça, olhou para o chão e disse: “Deveria haver uma exceção. Deveria haver uma saída. Deveria haver um meio, mas não há”.

O missionário olhou para mim e, com lágrimas nos olhos, disse: “Puxa, presidente, nós realmente temos a verdade, não é mesmo?”

O momento em que nos damos conta de nosso testemunho, o momento em que percebemos que sabemos, é doce e sublime. Esse testemunho, se nutrido, envolve-nos como um manto. Quando vemos a luz, somos envolvidos por ela. A luz da compreensão se acende dentro de nós.

Conversei certa vez com um excelente rapaz que não era da nossa religião, embora tivesse assistido à maior parte de nossas reuniões de adoração por mais de um ano. Perguntei por que ele não havia-se filiado à Igreja. Ele respondeu: “Porque não sei se ela é verdadeira. Acho que ela pode muito bem ser verdadeira, mas não posso levantar-me e testificar, como vocês fazem: ‘Sei, sem dúvida, que é verdadeira’”.

Perguntei: “Você já leu o Livro de Mórmon?” Ele respondeu que tinha lido algumas partes do livro.

Perguntei se tinha orado a respeito do livro. Ele respondeu: “Eu o mencionei em minhas orações”.

Disse a esse jovem amigo que, enquanto ele fosse superficial em sua leitura e orações, jamais descobriria, nem que se passasse uma eternidade. Mas, se ele reservasse uma ocasião para jejum e súplica, a verdade arderia em seu coração, e então saberia que sabia. Ele não falou mais nada, mas disse à esposa, na manhã seguinte, que faria um jejum. No sábado seguinte, foi batizado.

Se você quiser saber que sabe o que sabe, é preciso pagar o preço. E só você pode pagar esse preço. Há procuradores para realizar as ordenanças, mas não para adquirir um testemunho.

Alma descreveu a conversão com estas belas palavras: “Eis que jejuei e orei durante muitos dias, a fim de saber estas coisas por mim mesmo. E agora sei por mim mesmo que são verdadeiras, porque o Senhor Deus mas revelou (Alma 5:46)”.

Quando nos damos conta do testemunho, surge um desejo ardente de prestar esse testemunho a outras pessoas. Quando Brigham Young saiu das águas do batismo, ele disse: “O Espírito do Senhor estava sobre mim, e senti que meus ossos se consumiriam a menos que eu falasse para as pessoas (...). O primeiro discurso que fiz na vida durou mais de uma hora. Abri a boca, e o Senhor falou por mim”.2 Assim como o fogo não queima, a menos que a chama seja exposta, o testemunho não pode perdurar se não for expresso.

Brigham Young disse o seguinte, sobre Orson Pratt: “Se o irmão Orson [fosse] cortado em pedacinhos, cada um deles gritaria: ‘o mormonismo [é] verdadeiro’”.3 O patriarca Leí louvou seu nobre filho Néfi com estas palavras: “Eis porém que não foi ele, mas sim o Espírito do Senhor que estava nele que lhe abriu a boca para falar, de maneira que não podia fechá-la (2 Néfi 1:27)”.

A oportunidade e a responsabilidade de prestar testemunho ocorrem, em primeiro lugar, no ambiente familiar. Devemos agir de modo que nossos filhos se lembrem do brilho em nosso olhar, do som de nosso testemunho vibrante em seus ouvidos e do que sentiram no coração quando prestamos a eles — nosso público mais precioso — o testemunho de que Jesus é mesmo Filho do próprio Deus e que Joseph foi Seu profeta. Nossa posteridade precisa saber que sabemos, porque lhe dizemos isso com freqüência.

Os primeiros líderes da Igreja pagaram um alto preço para estabelecer esta dispensação. Talvez nos encontremos com eles, no mundo vindouro, e ouçamos seu testemunho. Quando formos chamados a testificar, o que diremos? Haverá verdadeiros bebês e verdadeiros gigantes nas coisas espirituais, no mundo vindouro. A eternidade é um tempo demasiadamente longo para se viver sem luz, especialmente se nosso cônjuge e nossos descendentes também viverem nas trevas porque não havia luz dentro de nós e, por isso, outros não puderam acender suas lâmpadas.

Devemos ajoelhar-nos todas as manhãs e todas as noites e implorar ao Senhor que nunca percamos a fé, o testemunho ou a virtude. Só é realmente necessário haver uma testemunha, mas ela precisa ser você.

Eu tenho testemunho. Ele anseia por ser expresso. Presto testemunho de que o poder do Deus vivo está nesta Igreja. Eu sei que sei, e meu testemunho é verdadeiro, em nome de Jesus Cristo. Amém.

domingo, 7 de agosto de 2011

O Presente

Élder Lance B. Wickman
Dos Setenta

Contanto que tenhamos vivido o Presente de maneira a fazermos jus à graça purificadora da Expiação, viveremos eternamente com Deus.

Três semanas atrás, fiz uma incursão pelo Passado. Naquele momento, redescobri o Presente. E é sobre o Presente que desejo falar hoje.

Uma designação da Igreja me levou das vastas áreas do Pacífico ao Vietnã. Para mim, foi mais do que a mera travessia aérea de um oceano: foi uma viagem no tempo. Há mais de 40 anos eu servira nos campos de batalha daquele país como oficial de infantaria. Lembranças desse local ficaram profundamente gravadas na minha mente, bem como a de seu povo e dos companheiros de guerra com quem lutara. Jacó escreveu certa vez: “Nossa vida (…) passou como se fosse um sonho” (Jacó 7:26). Foi exatamente assim comigo. E agora eu estava voltando das minhas lembranças para aquele lugar, depois de quase meio século. Ao terminar minhas atribuições da Igreja, decidi visitar de novo aqueles campos onde haviam sido travadas terríveis batalhas. Acompanhado pela minha querida esposa, comecei a peregrinação.

Nem sabia o que esperar depois de tantos anos. E o que vi foi de fato surpreendente. Em vez de um povo destruído pela guerra, achei uma população jovial e vibrante. Em vez de uma zona rural devastada pelo fogo de artilharia, deparei-me com campos serenos e verdejantes. Até a selva parecia ter renascido. Creio que, de certa forma, eu esperava defrontar-me com o Passado, mas o que achei foi o Presente — e a promessa de um Futuro brilhante. Lembrei que “(…) O choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã” (Salmos 30:5).

Ao andar de novo no campo e numa trilha da floresta, voltei a ouvir mentalmente o matraquear de metralhadoras, o silvo de estilhaços e o barulho de armas menores. Tornei a ver o rosto bronzeado de jovens amigos que, como prova de devoção, fizeram o sacrifício supremo. E pensei num deles, em um dia em particular — um único dia — 3 de abril de 1966. Era Domingo de Ramos — época de Páscoa. Já faz quase 42 anos, e quase nesta mesma época.

Nosso batalhão de infantaria chegara ao Vietnã vários meses antes. Eu era tenente, líder de um pelotão de infantaria. Estávamos envolvidos quase constantemente em operações de combate. Amanhecera e nosso batalhão estava bem no meio do território inimigo. Logo no início da manhã, mandei uma patrulha de reconhecimento de cerca de 10 homens. Um deles era o Sargento Arthur Morris. Nessa missão, muitos homens foram atingidos por tiros, inclusive o Sargento Morris que sofrera um ferimento leve. Por fim, os integrantes da patrulha voltaram mancando até onde estávamos.

Mandamos uma mensagem pelo rádio pedindo um helicóptero. Ao encaminhar os feridos ao helicóptero, disse ao Sargento Morris que também entrasse. Ele ficou hesitante. Mais uma vez, disse-lhe que embarcasse. Novamente se mostrou reticente. Insisti com ele, mas ele tornou a recusar. Por fim, dei uma ordem: “Sargento Morris, entre no helicóptero”. Lançou-me um olhar suplicante, como que implorando: “Por favor, senhor” e pronunciou estas palavras que jamais esquecerei: “Eles não conseguirão matar um sujeito durão como eu”.

A cena inteira ficou gravada na minha mente como um quadro de batalha: a clareira na floresta, o barulho palpitante e ensurdecedor da hélice, o piloto a olhar-me impaciente e meu amigo insistindo para ficar com seus companheiros. Acabei cedendo e fiz sinal para o helicóptero partir, levando consigo a esperança de Futuro. Antes do pôr-do-sol daquele mesmo dia, meu caro amigo, o Sargento Arthur Cyrus Morris, caiu morto, atingido por fogo inimigo. E na minha mente continua a ecoar sem cessar sua exclamação: “Eles não conseguirão matar, não conseguirão matar, não conseguirão matar…”

É claro que, de certa forma, ele estava terrivelmente enganado. A mortalidade é extremamente frágil. Somente um batimento cardíaco ou um suspiro separa este mundo do próximo. Num instante, meu amigo era uma pessoa cheia de vida e energia; no outro, seu espírito imortal partira, deixando o tabernáculo mortal como uma massa de argila inerte. A morte é um umbral que todos atravessarão. Assim como o Sargento Arthur Morris, nenhum de nós sabe quando esse momento chegará. De todos os desafios que enfrentamos, talvez o maior seja a sensação errônea de que a mortalidade dura para sempre e a impressão que disso decorre: a de podermos adiar o momento de pedir e oferecer o perdão, que é, conforme ensina o evangelho de Jesus Cristo, um dos principais propósitos da mortalidade.

Esta profunda verdade é ensinada por Amuleque no Livro de Mórmon:

“Pois eis que esta vida é o tempo para os homens prepararem-se para encontrar Deus; sim, eis que o dia desta vida é o dia para os homens executarem os seus labores. (…) [Portanto], que não deixeis o dia do arrependimento para o fim; (…) porque o mesmo espírito que possuir vosso corpo quando deixardes esta vida, esse mesmo espírito terá poder para possuir vosso corpo naquele mundo eterno” (Alma 34:32–34; grifo do autor).

Que expressão forte Amuleque usa: o “dia desta vida!” O apóstolo Tiago expressa essa idéia da seguinte forma: “Digo-vos que não sabeis o que acontecerá amanhã. Porque, que é a vossa vida? É um vapor que aparece por um pouco, e depois se desvanece” (Tiago 4:14). E a pessoa que somos quando partimos desta vida é a pessoa que seremos quando ingressarmos na próxima. Devemos ser gratos por termos o Presente.

Apesar de terrivelmente equivocado, de certa forma o Sargento Morris também estava certo! Somos de fato imortais, na medida em que a Expiação de Cristo vence a morte, tanto física quanto espiritual. E contanto que tenhamos vivido o Presente de maneira a fazermos jus à graça purificadora da Expiação, viveremos eternamente com Deus. Esta vida não é um período para apenas possuirmos e acumularmos, mas sobretudo para doarmos e nos aperfeiçoarmos. A mortalidade é o campo de batalha no qual se confrontam a justiça e a misericórdia. Mas elas não precisam se contrapor, pois se reconciliam na Expiação de Jesus Cristo para todos os que fizerem uso sábio do Presente.

Compete-nos assim tanto pedir quanto oferecer esse perdão, a fim de nos arrependermos e sermos caridosos com o próximo, o que nos permite passar pela porta que o Salvador mantém aberta e que constitui o limiar desta vida para a exaltação. O Presente é o dia de perdoarmos as “ofensas” alheias, com o conhecimento seguro de que assim o Senhor perdoará as nossas. Lucas declarou de modo significativo: “Sede, pois, misericordiosos” (ver Lucas 6:36; grifo do autor). Talvez a perfeição nos escape nesta vida, mas podemos ser misericordiosos. E no fim, o arrependimento e o perdão estão entre as principais exigências de Deus para nós.

Ao fim da minha viagem pelo tempo, olhei os campos serenos do Presente e vi em sua fertilidade a promessa do Futuro. Pensei no meu amigo, o Sargento Arthur Cyrus Morris. Pensei naquele longínquo e fatídico Domingo de Ramos. E senti profunda gratidão pelo Redentor da manhã de Páscoa que nos concede a vida, Aquele que, ao descer abaixo de todas as coisas nos permite erguer-nos acima de todas as coisas — no Futuro. . . mas isso apenas se fizermos bom uso do Presente. Em nome de Jesus Cristo. Amém.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Pedir, Buscar, Bater

Élder Russell M. Nelson
Do Quórum dos Doze Apóstolos

Todo santo dos últimos dias pode merecer revelação pessoal.

Meus amados irmãos e irmãs, sinto-me imensamente grato a cada um de vocês. Também sou grato pelo milagre da comunicação moderna que permite que esta conferência chegue a milhões de pessoas no mundo inteiro.

A tecnologia atual também permite que usemos telefones sem fio para trocar informações rapidamente. Recentemente, Wendy e eu estávamos em outro continente, a serviço da Igreja, quando ficamos sabendo que a família ganhara um novo bebê. Recebemos a boa notícia alguns minutos após o nascimento ter acontecido do outro lado do mundo.

Ainda mais assombrosa do que a tecnologia moderna é nossa oportunidade de ter acesso a informações provenientes diretamente do céu, sem hardware, software ou taxas mensais de serviço. É uma das mais maravilhosas dádivas que o Senhor ofereceu aos mortais. Trata-se deste Seu generoso convite: “pedi, e dar-se-vos-á; buscai, e encontrareis; batei, e abrir-se-vos-á”.1

Essa oferta eterna de revelação pessoal é feita a todos os Seus filhos. Parece até bom demais para ser verdade. Mas é verdade! Já recebi esse auxílio celestial e agi de acordo com ele. Aprendi que preciso estar sempre pronto para recebê-lo.

Há vários anos, durante o período de preparação de um discurso para a conferência geral, acordei de um sono profundo com uma ideia firme gravada na mente. Em seguida, peguei o lápis e o papel que deixava ao lado da cama e escrevi o mais rápido que pude. Voltei a dormir sabendo que tinha captado aquela grande inspiração. Na manhã seguinte, olhei para a folha de papel e descobri, consternado, que minha escrita era totalmente ilegível! Ainda guardo lápis e papel ao lado da cama, mas escrevo com mais cuidado agora.

Para ter acesso à informação do céu, precisamos primeiro ter uma fé bem firme e um imenso desejo. Precisamos pedir com sinceridade de coração e real intenção, tendo fé em Jesus Cristo.2 “Real intenção” significa que queremos realmente seguir a instrução divina recebida.

A próxima exigência é a de estudarmos a questão diligentemente. Esse conceito foi ensinado aos líderes desta Igreja restaurada quando eles aprenderam como receber revelação pessoal. O Senhor os instruiu: “Eis que eu te digo que deves estudá-lo bem em tua mente; depois me deves perguntar se está certo e, se estiver certo, farei arder dentro de ti o teu peito; portanto sentirás que está certo”.3

Parte da preparação é conhecer e seguir os ensinamentos mais importantes do Senhor. Algumas de Suas verdades eternas se aplicam, de modo geral, como os mandamentos de não roubar, não matar e não prestar falso testemunho. Outros ensinamentos ou mandamentos também são gerais, como os que se referem ao Dia do Senhor, ao sacramento, ao batismo e à confirmação.

Algumas revelações foram dadas em situações particulares a profetas como Noé, para a construção da arca, ou a Moisés, a Leí e a Brigham, quando tiveram de conduzir seus seguidores durante uma árdua viagem. O padrão há muito estabelecido por Deus de ensinar Seus filhos por meio de profetas nos garante que Ele vai abençoar cada profeta e que Ele vai abençoar todos os que derem ouvidos aos conselhos proféticos.

O desejo de seguir o profeta exige muito esforço, porque o homem natural conhece bem pouco a respeito de Deus e ainda menos a respeito de Seu profeta. Paulo escreveu que “o homem natural não [aceita] as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente”.4 A mudança necessária para um homem natural se tornar um discípulo dedicado é muito grande.5

Outro profeta ensinou que “o homem natural é inimigo de Deus e tem-no sido desde a queda de Adão e sê-lo-á para sempre; a não ser que ceda ao influxo do Santo Espírito e despoje-se do homem natural e torne-se santo pela expiação de Cristo, o Senhor; e torne-se como uma criança, submisso, manso, humilde, paciente, cheio de amor, disposto a submeter-se a tudo quanto o Senhor achar que lhe deva infligir, assim como uma criança se submete a seu pai”.6

Recentemente, observei uma mudança vigorosa assim num homem que conheci há dez anos. Ele tinha ido a uma conferência de estaca em que o filho seria apoiado membro da nova presidência de estaca. O pai não era membro da Igreja. Depois que o filho foi designado, abracei o pai e o elogiei por ter um filho tão maravilhoso. Então, declarei com destemor: “Chegará o dia em que vai querer que seu filho seja selado a você e sua esposa no templo sagrado. Quando esse dia chegar, ficarei honrado em realizar esse selamento para você”.

Nos dez anos que se seguiram, não vi mais aquele homem. Há seis semanas, ele e a esposa vieram a meu escritório. Ele me cumprimentou calorosamente e contou como ficara surpreso com aquele meu convite. Não fez nada naquele sentido até que, mais tarde, começou a perder a audição. Então, deu-se conta de que seu corpo estava mudando e que o tempo que lhe restava na Terra era realmente limitado. No decurso dos acontecimentos, acabou perdendo a audição. Ao mesmo tempo, converteu-se e filiou-se à Igreja.

Em nossa conversa, ele resumiu sua total transformação: “Tive de perder a audição antes de poder dar ouvidos à grande importância de sua mensagem. Foi então que me dei conta do quanto queria que meus entes queridos fossem selados a mim. Agora estou digno e preparado. Poderia, por favor, realizar o selamento?”7 Eu o fiz com imenso sentimento de gratidão a Deus.

Depois da conversão, pode haver ainda maior refinamento espiritual. A revelação pessoal pode ser melhorada até se tornar discernimento espiritual. Discernir significa filtrar, separar ou distinguir.8 O dom do discernimento espiritual é uma dádiva sublime.9 Ele permite que os membros da Igreja vejam coisas que não são visíveis e sintam coisas que não são tangíveis.

O bispo tem o direito de ter esse dom, ao desempenhar a tarefa de procurar os pobres e cuidar dos necessitados. Com esse dom, as irmãs podem observar as tendências no mundo e detectar aquelas que, por mais populares que sejam, são fúteis ou até perigosas. Os membros podem discernir o que são propostas atraentes, porém fugazes, e o que são refinamentos inspiradores e duradouros.

O discernimento estava implícito nas importantes instruções dadas pelo Presidente John Taylor há muito tempo.10 Ele ensinou o seguinte aos presidentes de estaca, bispos e outros: “As pessoas que possuem [esses cargos] têm o direito de receber a palavra de Deus concernente aos deveres de sua presidência para que possam cumprir de modo mais eficaz Seus santos propósitos. Nenhum dos chamados ou cargos do sacerdócio são para o próprio benefício, lucro ou fama dos que os ocupam, mas são dados estritamente para cumprir os propósitos de nosso Pai Celestial e para edificar o reino de Deus na Terra. Procuramos (…) compreender a vontade de Deus e depois cumpri-la. E cuidamos para que seja cumprida por aqueles que estão sob nosso encargo”.11

Para que cada um de vocês receba revelação específica para as próprias necessidades e responsabilidades, certas diretrizes precisam ser seguidas. O Senhor pede que desenvolvamos “fé, esperança, caridade e amor, com os olhos fitos na glória de Deus”. Depois, por meio de sua firme “fé, da virtude, do conhecimento, da temperança, da paciência, da bondade fraternal, da piedade, da caridade, da humildade [e] da diligência”, poderemos pedir, e receberemos; poderemos bater, e nos será aberta.12

A revelação de Deus é sempre compatível com Sua lei eterna. Ela nunca contradiz Sua doutrina. Ela é facilitada pela devida reverência a Deus. O Mestre deu esta instrução:

“Eu, o Senhor, sou misericordioso e benigno para com aqueles que me temem e deleito-me em honrar aqueles que me servem em retidão e em verdade até o fim.

Grande será sua recompensa e eterna sua glória.

A eles revelarei todos os mistérios (...) e minha vontade concernente a todas as coisas relativas a meu reino”.13

A revelação não precisa vir toda de uma vez. Pode vir aos poucos. “Assim diz o Senhor Deus: Darei aos filhos dos homens linha sobre linha, preceito sobre preceito, um pouco aqui e um pouco ali; e abençoados os que dão ouvidos aos meus preceitos e escutam os meus conselhos, porque obterão sabedoria; pois a quem recebe darei mais.”14 A paciência e a perseverança fazem parte de nosso progresso eterno.

Os profetas descreveram o que sentiram quando receberam revelação. Joseph Smith e Oliver Cowdery relataram o seguinte: “Retirou-se o véu de nossa mente e abriram-se os olhos de nosso entendimento”.15 O Presidente Joseph F. Smith escreveu: “Enquanto refletia sobre essas coisas que estão escritas, os olhos de meu entendimento foram abertos e o Espírito do Senhor repousou sobre mim”.16

Todo santo dos últimos dias pode merecer revelação pessoal. O convite de pedir, buscar e bater pedindo orientação divina existe porque Deus vive e Jesus é o Cristo vivo. Existe porque esta é Sua Igreja viva.17 E somos abençoados hoje porque o Presidente Thomas S. Monson é Seu profeta vivo. Que possamos dar ouvidos e atender a seu profético conselho, é minha oração, em nome de Jesus Cristo. Amém.

domingo, 19 de junho de 2011

Que Firme Alicerce

Presidente Thomas S. Monson
Primeiro Conselheiro na Primeira Presidência

Podemos reforçar nosso alicerce de fé e nosso testemunho da verdade, para que não vacilemos, não fracassemos.

Meus queridos irmãos e irmãs, tanto os que estão ao alcance de minha visão quanto os que se acham reunidos no mundo inteiro, busco sua fé e orações ao atender à designação e ao privilégio de dirigir-me a vocês.

Em 1959, não muito tempo depois de iniciar meu serviço como presidente da Missão Canadense, sediada em Toronto, Ontário, Canadá, conheci N. Eldon Tanner, um proeminente canadense que, apenas dois meses depois, seria chamado como Assistente do Quórum dos Doze Apóstolos, logo a seguir, como membro do Quórum dos Doze e, depois, como conselheiro de quatro Presidentes da Igreja.

Quando conheci o Presidente Tanner, ele era presidente da grande Trans-Canadá Pipelines Ltd. e presidente da Estaca Canadá Calgary. No Canadá, era conhecido como “Mister Integridade”. Naquele primeiro encontro falamos, entre outros assuntos, do rigoroso inverno canadense, no qual as tempestades eram violentas, as temperaturas caíam bem abaixo da de congelamento durante semanas seguidas, e os ventos glaciais baixavam ainda mais as temperaturas. Perguntei ao Presidente Tanner por que as estradas e rodovias do oeste do Canadá basicamente permaneciam intactas durante tais invernos, mostrando pouco ou nenhum sinal de rachaduras ou rompimentos, enquanto a superfície das estradas de muitas áreas, onde o inverno é menos frio e rigoroso, apresenta rachaduras, rompimentos e buracos.

Ele disse: “A resposta está na profundidade da base dos materiais de pavimentação. Para que eles permaneçam firmes e não se rompam, é necessário aprofundar muito as camadas da base. Quando essas não são profundas o bastante, a superfície não suporta as temperaturas extremas”.

Com o passar dos anos, pensei com freqüência nessa conversa e na explicação do Presidente Tanner, pois reconheci em suas palavras uma grandiosa aplicação para nossa vida. Simplificando, se não tivermos um firme alicerce de fé e um testemunho sólido da verdade, poderá ser difícil enfrentar as tempestades violentas e os ventos glaciais da adversidade que inevitavelmente atingem cada um de nós.

A mortalidade é um período de testes, um período para nos mostrarmos dignos de retornar à presença de nosso Pai Celestial. Para sermos testados, precisamos enfrentar desafios e dificuldades. Eles podem nos destruir, e a superfície de nossa alma poderá rachar e desmoronar — isto é, se o nosso alicerce de fé e o nosso testemunho da verdade não estiverem firmemente enraizados em nós.

Podemos contar com a fé e o testemunho de outros, por certo tempo. No final, é preciso que o nosso próprio alicerce esteja firme e profundamente enraizado, ou seremos incapazes de suportar as tempestades da vida, que certamente virão. Tais tempestades chegam-nos de várias formas. Podemos defrontar-nos com a tristeza e o sofrimento de ver um filho obstinado preferir afastar-se do caminho que leva à verdade eterna e divagar pelas ladeiras escorregadias do erro e da desilusão. A doença pode acometer-nos ou a um ente querido, trazendo sofrimento e, às vezes, a morte. Acidentes podem deixar sua marca cruel na memória ou mesmo ceifar vidas. A morte chega ao idoso, à medida que caminha, vacilante. Sua convocação é ouvida por aqueles que mal chegaram ao meio do caminho na jornada da vida e, com freqüência, silencia o riso das criancinhas.

Às vezes, parece que não há luz no fim do túnel, nenhuma aurora para dispersar a escuridão da noite. Sentimo-nos circundados pela dor de um coração partido, pela desilusão de sonhos despedaçados e pela angústia de esperanças perdidas. Unimo-nos ao apelo bíblico: “Porventura não há bálsamo em Gileade?” (Jeremias 8:22) Ficamos inclinados a ver nossos infortúnios através do prisma distorcido do pessimismo. Sentimo-nos abandonados, inconsoláveis, sozinhos.

Como podemos edificar um alicerce forte o bastante para suportar as vicissitudes da vida? Como podemos manter a fé e o testemunho que nos serão exigidos para que possamos experimentar a alegria prometida aos fiéis? É necessário um empenho constante e inabalável. A maioria de nós já sentiu uma inspiração tão forte que trouxe lágrimas aos olhos e uma determinação de permanecer sempre fiel. Ouvi a declaração: “Se eu pudesse ao menos ter sentimentos como esses sempre comigo, jamais teria problemas para fazer o que devo”. Tais sentimentos, porém, podem ser fugazes. A inspiração que sentimos durante estas sessões de conferência pode enfraquecer e desaparecer gradualmente, quando vem a segunda-feira e enfrentamos a rotina do trabalho, da escola, de administrar nosso lar e nossa família. Essas coisas podem facilmente desviar nossa mente do que é santo, para o que é material; do que edifica, para o que — se permitirmos — desgasta nosso testemunho, nosso forte alicerce espiritual.

Naturalmente, não vivemos em um mundo onde experimentamos apenas o que é espiritual, mas podemos reforçar nosso alicerce de fé e nosso testemunho da verdade, para que não vacilemos, não fracassemos. Como, talvez se perguntem, podemos obter e manter mais eficazmente o alicerce necessário para sobreviver espiritualmente no mundo em que vivemos?

Permitam-me oferecer-lhes três diretrizes que poderão ajudar-nos nessa busca.

Primeira, fortaleçam seu alicerce por meio da oração. “A oração é o desejo sincero da alma, seja ela proferida ou silenciosa” (“Prayer Is the Soul’s Sincere Desire”, Hymns, nº 145).

Ao orar, que nos comuniquemos realmente com nosso Pai Celestial. É fácil deixar que nossas orações se tornem repetitivas, expressando palavras com pouco ou nenhum conteúdo. Quando nos lembrarmos de que cada um de nós é literalmente filho ou filha espiritual de Deus, não teremos dificuldade para abordá-Lo em oração. Ele nos conhece; Ele nos ama; Ele quer o que é melhor para nós. Que oremos com sinceridade e significado, oferecendo nossa gratidão e pedindo coisas que sentimos serem necessárias. Que escutemos Suas respostas, para que as reconheçamos, quando chegarem. Fazendo assim, seremos fortalecidos e abençoados. Passaremos a conhecê-Lo e a saber o que Ele deseja para a nossa vida. Por conhecê-Lo, por confiar em Sua vontade, nosso alicerce de fé será reforçado. Se alguém dentre nós tem sido lento para dar ouvidos ao conselho de orar sempre, não há melhor hora para começar do que agora. William Cowper declarou: “Satanás treme quando vê ajoelhar-se o mais fraco dos santos” (William Neil, comp., Concise Dictionary of Religious Quotations, [1974], p. 144).

Que não negligenciemos nossas orações familiares. Elas são um inibidor eficaz contra o pecado e, portanto, a melhor e mais produtiva fonte de alegria e felicidade. O velho ditado ainda é verdadeiro: “A família que ora unida permanece unida”. Ao darmos o exemplo da oração aos nossos filhos, estaremos também os ajudando a iniciarem o aprofundamento do próprio alicerce de fé e testemunho, do qual precisarão durante toda a vida.

Minha segunda diretriz: Que estudemos as escrituras e “meditemos nelas dia e noite”, conforme aconselhado pelo Senhor no livro de Josué 1:8.

Em 2005, centenas de milhares de santos dos últimos dias aceitaram o desafio do Presidente Hinckley de ler o Livro de Mórmon até o final daquele ano. Acredito que dezembro de 2005 bateu o recorde de horas dedicadas para vencer o desafio no prazo. Fomos abençoados ao completar a tarefa; nosso testemunho se fortaleceu, nosso conhecimento aumentou. Quero incentivar todos nós a que continuemos a ler e a estudar as escrituras, para que as compreendamos e apliquemos em nossa vida as lições que lá encontramos. Parafraseando o poeta James Phinney Baxter:

O que estuda e estuda, mas nunca aprende,

É como o que ara e ara, mas nunca semeia.

(“The Baxter Collection”, Baxter Memorial Library, Gorham, Maine)


Empregar algum tempo por dia estudando as escrituras, sem dúvida, reforçará nosso alicerce de fé e nosso testemunho da verdade.

Lembrem-se comigo da alegria que Alma sentiu ao viajar da terra de Gideão para o sul, em direção à terra de Mânti e encontrar os filhos de Mosias. Havia algum tempo que Alma não os via e sentiu-se muito feliz ao descobrir “que eles ainda eram seus irmãos no Senhor; sim, e haviam-se fortalecido no conhecimento da verdade; porque eram homens de grande entendimento e haviam examinado diligentemente as escrituras para conhecerem a palavra de Deus” (ver Alma 17:1, 2).

Que possamos também conhecer a palavra de Deus e conduzir nossa vida de acordo com ela.

Minha terceira diretriz para a edificação de um firme alicerce de fé e testemunho envolve o serviço.

Certa manhã, enquanto dirigia para o escritório, passei por uma tinturaria onde havia uma placa na janela. Lá se lia: “É o Serviço Que Conta”. A mensagem da placa simplesmente não me saía do pensamento. De repente, lembrei-me por quê. De fato, realmente, é o serviço que conta — o serviço do Senhor.

No Livro de Mórmon, lemos a respeito do nobre rei Benjamim. Com a verdadeira humildade de um líder inspirado, ele expressou o desejo de servir a seu povo e de guiá-lo nos caminhos da retidão. Declarou-lhes:

“Eis que vos digo, ao afirmar-vos haver empregado meus dias a vosso serviço, que não é meu desejo vangloriar-me, porque só estive a serviço de Deus.

E eis que vos digo estas coisas para que aprendais sabedoria; para que saibais, que quando estais a serviço de vosso próximo, estais somente a serviço de vosso Deus” (Mosias 2:16–17).

Esse é o serviço que conta, o serviço para o qual todos fomos chamados: o serviço do Senhor Jesus Cristo.

Ao longo do caminho da vida, notaremos que não somos os únicos viajantes. Existem outros que precisam de ajuda. Existem pés a ser firmados, mãos a segurar, mentes a incentivar, corações para inspirar e almas para salvar.

Há treze anos, tive o privilégio de dar uma bênção a uma linda jovenzinha de 12 anos de idade, Jami Palmer. Os médicos diagnosticaram um câncer em seu organismo, e ela se sentia assustada e confusa. Precisou submeter-se a uma cirurgia e a uma dolorosa quimioterapia. Hoje, ela está livre do câncer e é uma linda moça de 26 anos de idade e já realizou muitas coisas na vida. Há algum tempo, em sua hora de maior escuridão, em que qualquer possibilidade futura parecia cruel, ela soube que a perna, onde o câncer se alojara, exigiria múltiplas cirurgias. Aquela caminhada, há muito tempo planejada com sua classe de Moças, que seguiria por uma trilha acidentada até a Caverna Timpanogos —localizada nas Montanhas Wasatch, a 64 quilômetros ao sul de Salt Lake City, Utah — estava fora de questão, pensou. Jami contou às amigas que teriam que subir a trilha sem ela. Estou certo de que havia um nó em sua garganta e decepção no coração. Mas aí as outras jovens responderam enfaticamente: “Não, Jami; você vai conosco!”

“Mas não posso andar”, foi a resposta angustiada.

“Nesse caso, Jami, carregaremos você até o topo!” E foi o que fizeram.

Hoje, a caminhada é só uma recordação mas, na realidade, é muito mais. James Barrie, poeta escocês, declarou: “Deus deu-nos recordações, para que possamos ter as rosas da primavera no inverno da nossa vida” (paráfrase de James Barrie, em Laurence J. Peter, comp. Peter’s Quotations: Ideas for Our Time [1977], p. 335). Nenhuma daquelas preciosas jovens jamais se esquecerá daquele dia memorável em que um Pai Celestial amoroso olhou para baixo com um sorriso de aprovação e grande satisfação.

Ele, ao alistar-nos na Sua causa, convida-nos a achegar-nos a Ele e a sentir Seu Espírito em nossa vida.

Ao estabelecermos um firme alicerce em nossa vida, lembremo-nos de Sua preciosa promessa:

Se Deus é convosco, a quem temereis?

Ele é vosso Deus, seu auxílio tereis.

Se o mundo vos tenta, se o mal faz tremer,

Com mão poderosa vos há de suster.

(“How Firm a Foundation,” Hymns, no. 85)


Que cada um se qualifique para merecer essa bênção. É minha humilde oração, em nome de Jesus Cristo, nosso Salvador. Amém.

domingo, 12 de junho de 2011

Cultivar Tradições Virtuosas

Élder Donald L. Hallstrom
Dos Setenta

"São particularmente importantes [as tradições] que promovem o amor por Deus e união na família e entre os povos."

Sempre serei grato por ter nascido e por ter sido criado no Havaí, que fazem parte do que as escrituras freqüentemente chamam de "as ilhas do mar". Sendo muitas vezes chamado de caldeirão fervente, por causa de sua formação multi-étnica, outras pessoas usam um termo mais preciso, considerando-o um "delicioso cozido", no qual cada cultura conserva sua identidade mas mescla-se harmoniosamente ao caldo social que pode ser saboreado por todos. Além disso, por ter servido numa missão na Inglaterra, por ter morado muito tempo na parte continental dos Estados Unidos e estar agora vivendo e servindo na Ásia, há muito que me interesso pelas culturas e tradições e pela influência que elas exercem na maneira como nos vestimos, pensamos e agimos. Define-se cultura como "as crenças habituais, os padrões sociais de comportamento e ( . . . ) as tendências ( . . . ) mais comuns de um grupo". (Merriam-Webster's Collegiate Dictionary, 10th ed.) As tradições, que são aqueles padrões de comportamento estabelecidos e transmitidos de uma geração para a outra, são uma parte inerente da cultura. Nossa cultura e suas tradições ajudam-nos a estabelecer o nosso senso de identidade e atendem à nossa necessidade vital e humana de fazermos parte do grupo.

A respeito das tradições complementares ao evangelho de Jesus Cristo, Paulo admoestou aos tessalonicenses: "Estai firmes e retende as tradições que vos foram ensinadas". (II Tessalonicenses 2:15) Na Igreja, há tradições vigorosas que nos relembram a força e o sacrifício de nossos antepassados e inspiram nosso trabalho. Entre elas estão a industriosidade, a frugalidade e a total devoção a uma causa digna. Outras são baseadas em doutrinas e padrões que podem parecer estranhos ao mundo, mas que estão em harmonia com o padrão determinado por Deus. Elas incluem a castidade, o recato no vestir, a linguagem limpa, a santificação do Dia do Senhor, o cumprimento da Palavra de Sabedoria e o pagamento do dízimo.

Mesmo em nossa cultura étnica, muitas tradições podem reafirmar padrões e princípios do evangelho. Antigamente, por exemplo, havia um costume entre os havaianos que continua a manifestar-se na vida de muitos de seus habitantes. Ao cumprimentar alguém, a pessoa coloca-se cara a cara com a outra e faz "há", chegando a expelir o hálito para que a outra pessoa o sinta. A tradução literal de "há" é "fôlego da vida". Era um modo de se oferecer à outra pessoa uma demonstração de profundo amor e consideração fraternal. Quando os primeiros estrangeiros chegaram ao Havaí, eles não demonstraram esse mesmo respeito pelas pessoas. Foram chamados de "haole", que significa "sem há".

Se existe um povo que deveria ter "há", ou seja, uma grande caridade e compaixão pelas pessoas, são os membros de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. Um verdadeiro santo dos últimos dias sente um amor pelo próximo condizente à sua crença de que todos são seus irmãos e irmãs.

As tradições inspiradoras desempenham um papel importante no processo de conduzir-nos às coisas do Espírito. São particularmente importantes aquelas que promovem o amor por Deus e união na família e entre os povos.

O poder da tradição, porém, também traz um risco considerável. Ele pode fazer com que nos esqueçamos de nossa herança celeste. Para alcançar metas eternas, precisamos reconciliar nossa cultura terrena com a doutrina do evangelho eterno. Esse processo consiste em aceitarmos tudo o que seja espiritualmente inspirador nas tradições de nossa família e sociedade, deixando de lado tudo aquilo que seja um obstáculo à nossa perspectiva e realização eternas. Precisamos deixar de ser homens e mulheres "naturais", como disse o rei Benjamim, e tornar-nos "santos" cedendo ao "influxo do Santo Espírito". (Ver Mosias 3:19.)

Alertando-nos também de seu perigo e gravidade, o Profeta Joseph Smith foi inspirado a esclarecer uma das epístolas de Paulo aos habitantes de Corinto, declarando: "E aconteceu que os filhos, tendo sido criados na sujeição à lei de Moisés, deram ouvidos às tradições de seus pais e não acreditaram no evangelho de Cristo; e nisso tornaram-se impuros". (D&C 74:4)

Não pensem que esse princípio se aplica apenas aos outros e à cultura deles; é válido para todos nós, onde quer que moremos na Terra ou sejam quais forem as condições em que viva a nossa família.

São tradições indesejáveis aquelas que nos afastam da realização das ordenanças sagradas e do cumprimento dos convênios sagrados. Nosso guia deve ser a doutrina ensinada nas escrituras e pelos profetas. As tradições que desprezam o casamento e a família, rebaixam a mulher ou não reconhecem a nobreza de seu papel ordenado por Deus, honram o sucesso material mais do que o espiritual, ou ensinam que confiar em Deus é sinal de fraqueza de caráter, todas elas, afastam-nos das verdades eternas.

De todas as tradições que devemos cultivar em nossa própria vida e no seio de nossa família, a mais importante deve ser a "tradição da retidão". As características marcantes dessa tradição são o amor inabalável por Deus e por Seu Filho Unigênito, o respeito pelos profetas e pelo poder do sacerdócio, a busca constante da companhia do Santo Espírito, e a disciplina do discipulado, que transforma as crenças em ações. Uma tradição de retidão estabelece um padrão de vida que aproxima os filhos dos pais, e a família, de Deus, fazendo com que a obediência deixe de ser um fardo e passe a ser uma bênção.

Num mundo onde as tradições freqüentemente confundem o certo com o errado:

Somos inspirados pela coragem de cada jovem que honra o Dia do Senhor, guarda a Palavra de Sabedoria e permanece casto, ao passo que a cultura popular considera o oposto disso não apenas aceitável, mas esperado de todos.

Somos inspirados pela sabedoria de que todo rapaz siga uma carreira com a qual possa sustentar devidamente a sua mais nova responsabilidade, que é a de dirigir espiritualmente a sua família, ao passo que a riqueza e o poder são altamente valorizados pelo mundo.

Somos inspirados pela nobreza de todo marido e mulher que estabeleceram um relacionamento de igualdade e bondade, quando o egoísmo e a indiferença são tão comuns.

À medida que a natureza celeste de nossa vida começar a ser entendida e vivida, não desejaremos que nada mundano interfira em nossa jornada celestial.

Sentindo-me humilde em minha responsabilidade, mas exultante com a oportunidade de pregar o evangelho e prestar testemunho em todo o mundo, afirmo meu conhecimento de verdades eternas e cultura infinita. Testifico a respeito de quinze homens com chamado profético e autoridade apostólica, e em especial de um deles, o Presidente Gordon B. Hinckley, que preside com dignidade, visão e um claro entendimento das tradições virtuosas. Mais importante que isso, presto testemunho do Salvador e Redentor da humanidade, de Sua Igreja e de Seu amor redentor, em nome de Jesus Cristo. Amém.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Disciplina Moral

Élder D. Todd Christofferson
Do Quórum dos Doze Apóstolos

A disciplina moral é o exercício consistente da liberdade de escolher o certo porque é o certo, mesmo que seja difícil.

Durante a Segunda Guerra Mundial, o Presidente James E. Faust, na época um jovem recruta no Exército dos Estados Unidos, candidatou-se à escola de oficiais. Ele foi sabatinado por uma banca examinadora composta do que chamou de “militares de carreira durões”. Logo as perguntas deles se voltaram para questões religiosas. As últimas perguntas foram:

“Em tempos de guerra, o código moral não deve ser menos rigoroso? O estresse da batalha não justifica que os homens façam coisas que não fariam em situações normais?”

O Presidente Faust relata:

“Percebi ali uma oportunidade de talvez causar uma boa impressão e de demonstrar uma mente aberta. Eu sabia perfeitamente que aqueles homens que me questionavam não viviam de acordo com os padrões que eu aprendera. Ocorreu-me dizer que eu tinha minhas próprias crenças, mas que não queria impô-las a outros. Mas também me passou pela mente o rosto das muitas pessoas a quem eu, como missionário, tinha ensinado a lei da castidade. No final, eu disse simplesmente: ‘Não acredito em duplo padrão de moralidade’.

Saí da entrevista convencido de que eles não haviam gostado das minhas respostas (…) e que minhas notas seriam baixas. Dias mais tarde, quando as notas foram divulgadas, verifiquei com surpresa que eu havia passado. E estava no primeiro grupo de candidatos à escola de oficiais! (…)

Essa foi uma das situações críticas da minha vida”.1

O Presidente Faust reconheceu que todos possuímos o dom do arbítrio moral concedido por Deus — o direito de fazer escolhas e a obrigação de responder por elas (ver D&C 101:78). Ele também compreendeu e demonstrou que, para obtermos resultados positivos, a liberdade moral deve ser acompanhada da disciplina moral.

Por “disciplina moral” quero dizer autodisciplina com base em padrões morais. A disciplina moral é o exercício consistente da liberdade de escolher o certo porque é o certo, mesmo que seja difícil. Essa disciplina rejeita a autoindulgência e favorece o desenvolvimento de um caráter digno de respeito e de verdadeira grandiosidade por meio de serviço cristão (ver Marcos 10:42–45). A raiz da palavra “disciplina” é a mesma de discípulo, sugerindo à mente que a conformidade com o exemplo e os ensinamentos de Jesus Cristo é a disciplina ideal que, juntamente com Sua graça, forma uma pessoa de excelente virtude e moral.

A disciplina do próprio Jesus estava enraizada em Seu discipulado ao Pai. A Seus discípulos, Ele explicou: “A minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou, e realizar a sua obra” (João 4:34). Por esse mesmo padrão, nossa disciplina moral está enraizada na lealdade e na devoção ao Pai a ao Filho. É o evangelho de Jesus Cristo que proporciona a certeza moral sobre a qual repousa a disciplina moral.

A sociedade em que muitos de nós vivemos tem falhado há várias gerações em promover a disciplina moral. A sociedade ensina que a verdade é relativa e que cada um decide por si mesmo o que é certo. Conceitos como pecado e erro têm sido condenados como “julgamentos de valor”. Conforme o Senhor descreve: “Todo homem anda em seu próprio caminho e segundo a imagem de seu próprio deus” (D&C 1:16).

Como resultado, a autodisciplina é destruída e a sociedade é obrigada a tentar manter a ordem e a civilidade por meio da repressão. A falta de controle interno nos indivíduos gera o controle externo pelo governo. Certo colunista observou que “o comportamento cavalheiresco [por exemplo, antigamente] protegia as mulheres de atitudes imorais. Hoje, espera-se que as leis contra o assédio sexual refreiem o comportamento imoral. (…)

Nem a polícia nem a justiça podem substituir costumes, tradições e valores morais como meios de regulamentação do comportamento humano. Na melhor das hipóteses, a polícia e a justiça são o último e desesperado recurso de defesa da sociedade civilizada. Nossa dependência das leis para o controle do comportamento demonstra como nos tornamos incivilizados”.2

Na maior parte do mundo vivenciamos uma recessão econômica extensa e devastadora. Ela foi causada por múltiplos fatores, mas um dos principais foi a generalização da conduta desonesta e sem ética, especialmente nos mercados de imóveis e finanças dos Estados Unidos. A reação se concentrou no aumento e na rigidez das regulamentações. Talvez essa medida possa dissuadir alguns de agir de maneira ilícita, mas outros simplesmente se valerão de meios mais criativos para burlar a lei.3 É impossível haver regras suficientes e tão bem articuladas que possam prever e cobrir cada situação; e mesmo que houvesse, sua aplicação seria demasiadamente cara e complicada. Essa abordagem conduz à restrição da liberdade de todos. Como disse de forma notável o Bispo Fulton J. Sheen: “Não quisemos aceitar o jugo de Cristo; pois agora devemos tremer sob o jugo de César”.4

Em suma, somente uma bússola moral interna em cada indivíduo pode efetivamente orientar-nos nas causas e nos sintomas originais da decadência social.A sociedade vai lutar em vão para estabelecer o bem comum, se não denunciar o pecado como pecado e se a disciplina moral não ocupar seu lugar no panteão das virtudes cívicas.5

Aprende-se a disciplina moral no lar. Embora não possamos controlar o que os outros fazem ou deixem de fazer, os santos dos últimos dias podem sem dúvida juntar forças com os que demonstram virtude na própria vida e a transmitem às novas gerações. Lembrem-se da história, no Livro de Mórmon, dos jovens que foram determinantes na vitória nefita na longa guerra entre 66 e 60 a.C. — os filhos do povo de Amon. O caráter e a disciplina deles foram descritos nestas palavras:

“Eram homens fiéis em todas as ocasiões e em todas as coisas que lhes eram confiadas.

Sim, eles eram homens íntegros e sóbrios, pois haviam aprendido a guardar os mandamentos de Deus e a andar retamente perante ele” (Alma 53:20–21).

“Ora, eles nunca haviam lutado. Não obstante, não temiam a morte; e pensavam mais na liberdade de seus pais do que em sua própria vida; sim, eles tinham sido ensinados por suas mães que, se não duvidassem, Deus os livraria” (Alma 56:47).

“Ora, era esta a fé possuída por aqueles de quem falei; eles são jovens, de opinião firme, e depositam continuamente sua confiança em Deus” (Alma 57:27).

Eis aí um padrão para o que deveria ocorrer em nosso lar e na Igreja. Nossos ensinamentos deveriam nutrir-se da nossa fé e concentrar-se primordial e principalmente em instilar na nova geração a fé em Deus. Devemos declarar a necessidade essencial de guardar os mandamentos de Deus e de andarmos em retidão e sobriedade diante Dele ou, em outras palavras, em reverência. Cada um deve-se convencer de que o serviço e o sacrifício pelo bem-estar e felicidade de outros estão acima das mais altas prioridades do próprio conforto e de bens pessoais.

Isso exige mais do que a referência esporádica a um ou outro princípio do evangelho. Exige o ensino constante — principalmente pelo exemplo.

O Presidente Henry B. Eyring ilustrou a visão daquilo que lutamos para alcançar:

“O puro evangelho de Jesus Cristo deve penetrar o coração de [nossos filhos] pelo poder do Espírito Santo. Não será suficiente para eles ter um testemunho da verdade e desejar boas coisas no decurso da vida. Não será suficiente para eles ter esperança de serem limpos e fortalecidos no futuro. Nossa meta é que eles se convertam verdadeiramente ao evangelho restaurado de Jesus Cristo enquanto estão conosco. Dessa forma, eles terão obtido força pelo que são, não só pelo que sabem. Eles se tornarão discípulos de Cristo”.6

Já ouvi alguns pais dizerem que não querem impor o evangelho a seus filhos, mas desejam que eles decidam por si mesmos sobre o que acreditarão e seguirão. Esses pais pensam que assim estarão permitindo que os filhos exerçam seu livre-arbítrio. O que eles se esquecem é que o exercício inteligente do livre-arbítrio exige o conhecimento da verdade, das coisas como elas realmente são (ver D&C 93:24). Sem esse conhecimento, não se pode esperar que os jovens compreendam e avaliem as alternativas que se lhes apresentarem. Os pais devem levar em consideração a maneira como o adversário aborda seus filhos. O inimigo e seus seguidores não estão promovendo a objetividade, mas são vigorosos promotores multimídia do pecado e do egoísmo.

A tentativa de manter a neutralidade em relação ao evangelho é, na realidade, uma rejeição à existência de Deus e de Sua autoridade. Devemos, sim, reconhecer a Ele e Sua onisciência, se quisermos que nossos filhos enxerguem com clareza as opções na vida e sejam capazes de pensar por si mesmos. Eles não precisam aprender por experiências dolorosas que “iniquidade nunca foi felicidade” (Alma 41:10).

Posso compartilhar um simples exemplo de minha própria vida sobre o que os pais podem fazer. Quando eu tinha cinco ou seis anos de idade, eu morava em frente a uma mercearia. Certo dia, dois meninos mais velhos, chamaram-me para ir com eles à mercearia. Enquanto cobiçávamos os doces lá expostos, o menino mais velho pegou um chocolate e o colocou sorrateiramente no bolso. Ele insistiu para que o outro menino e eu fizéssemos o mesmo e depois de alguma hesitação, nós o fizemos. Depois saímos rapidamente da loja e corremos em direções diferentes. Encontrei um esconderijo em casa e abri a embalagem do chocolate. Minha mãe me flagrou com a evidência do chocolate espalhado no meu rosto e me levou de volta à mercearia. Enquanto atravessávamos a rua, me veio a certeza de que pegaria prisão perpétua. Entre soluços e lágrimas, pedi desculpas ao proprietário e paguei-lhe pelo chocolate com uma moeda que minha mãe me havia emprestado (e que tive de merecer mais tarde). O amor e a disciplina de minha mãe colocaram um fim abrupto e precoce a minha vida de crimes.

Todos nós sofremos tentações. Até mesmo o Salvador, mas Ele “não lhes deu atenção” (D&C 20:22). De modo semelhante, não temos de ceder simplesmente porque a tentação aparece. Talvez até queiramos, mas não temos de fazê-lo. Uma amiga incrédula, perguntou a uma jovem adulta determinada a viver a lei da castidade se ela nunca tinha “dormido” com ninguém. “Você não quer?”, perguntou a amiga. A jovem ficou intrigada, porque a pergunta era fora de propósito. O simples querer dificilmente seria uma orientação apropriada para a conduta moral.7

Em alguns casos, a tentação pode ter a força suplementar do vício potencial ou real. Sou grato porque a Igreja é capaz de prover, para um número cada vez maior de pessoas, ajuda terapêutica de vários tipos para auxiliá-las a evitar os vícios ou lidar com eles. Mesmo assim, embora a terapia possa dar suporte à vontade individual, ela não pode substituí-la. Sempre deverá haver o exercício da disciplina — da disciplina moral fundamentada na fé em Deus, o Pai e em Seu Filho, e no que Eles podem alcançar conosco por meio da graça expiatória de Jesus Cristo. Segundo Pedro, “sabe o Senhor livrar da tentação os piedosos” (II Pedro 2:9).

Não podemos presumir que o futuro será semelhante ao passado — que as coisas e os padrões econômicos, políticos e sociais nos quais confiamos permaneçam como têm sido. Talvez a nossa disciplina moral, se a cultivarmos, venha a ser uma influência benéfica e inspiradora para que outros busquem o mesmo rumo. Poderemos assim exercer um impacto nas tendências e nos eventos futuros. No mínimo, a disciplina moral será uma ajuda imensa a nós para lidarmos com quaisquer tensões e desafios que apareçam em uma sociedade em desintegração.

Ouvimos mensagens amorosas e inspiradas durante esta conferência e, daqui a pouco, o Presidente Thomas S. Monson nos dirá suas palavras finais de admoestação. Ao considerarmos em espírito de oração o que aprendemos ou reaprendemos, creio que o Espírito derramará mais luz sobre aqueles pontos que se aplicarem a cada um de nós. Seremos fortalecidos com a disciplina moral necessária para andarmos retamente diante do Senhor e sermos um com Ele e com o Pai.

Ergo-me com estes meus irmãos e com vocês, meus irmãos e irmãs, como testemunha de que Deus é nosso Pai e de que Seu Filho, Jesus, é nosso Redentor. A lei Deles é imutável; Sua verdade é eterna e Seu amor é infinito. Em nome de Jesus Cristo, o Senhor. Amém.

ELA ME TROCOU POR UM ZUMBI

O ônibus comprido com várias portas havia chegado ao seu destino. sentia satisfação pelo sucesso da viagem. Desci pela porta dianteira e ela...